Uma réplica da estátua de Nossa Senhora Aparecida, uma foto do fundador da entidade de ultradireita TFP, Plinio Corrêa de Oliveira, e uma série de desenhos de fachadas de prédios. Assim é a decoração do escritório do engenheiro Adolpho Lindenberg, localizado na região dos Jardins, em São Paulo. Ícone da construção civil nas décadas de 60 e 70, quando ergueu edifícios superluxuosos para as classes A e B, Lindenberg, 76 anos de idade, vive hoje tempos bem menos opulentos, apesar de continuar tocando pessoalmente seus negócios. ?Durante o boom imobiliário no regime militar, cheguei a construir simultaneamente 100 prédios. Atualmente, tenho 20?, declarou Lindenberg a DINHEIRO. Justamente para enfrentar esses tempos mais difíceis, o empresário acaba de fechar uma parceria com a Gafisa, segunda maior construtora do País, para a criação da companhia Línea Speciale, dedicada exclusivamente a imóveis de altíssimo padrão. Pode ser o primeiro passo para a venda da sua empresa. ?Estamos em fase de namoro?, limita-se a dizer o engenheiro.

A Lindenberg definitivamente não tem mais a pompa do passado. Fatura em torno de R$ 12 milhões ao ano, contra os R$ 155 milhões da própria Gafisa. Oficialmente, qualquer idéia de incorporação é negada por Odair Senra, diretor de marketing desta empresa. ?A parceria tem objetivo de garantir o alto padrão dos apartamentos da Línea Speciale, que ficará a cargo da Lindenberg. A Gafisa se encarregará da moderna tecnologia na construção.? Acontece que há anos Lindenberg tenta se aposentar. Em 1997, chegou a fechar contrato de venda da construtora para a Samir Dichy, que acabou quebrando meses depois. O empresário não recebeu o pagamento e resgatou de volta sua companhia. Seu filho, também chamado Adolpho, cuida hoje da administração dos negócios, apesar do maior interesse em fazendas e de participar em outra empresa do ramo. Lindenberg se dedica ao acompanhamento das obras dos edifícios e aos desenhos de projetos imobiliários. ?É isso que realmente gosto de fazer. Mesmo nos fins de semana, minhas melhores horas de lazer são na prancheta.?

Tempos de glória. A nova parceria nasceu do sucesso, anos atrás, da construção de um prédio de altíssimo padrão na rua Maranhão, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. A Gafisa e a Lindenberg, excepcionalmente, trabalharam juntas no empreendimento. Agora, com o novo acordo firmado, Lindenberg estima que sua receita aumentará em 20% neste ano. O primeiro projeto conjunto foi lançado na semana passada, no bairro do Morumbi, e inclui uma cobertura de 700 metros quadrados. Outros quatro prédios já estão na agenda da Línea Speciale, que passa a ser uma companhia à parte. O número, no entanto, é modesto para quem já construiu 400 edifícios, como o hotel Tropical de Manaus, o condomínio comercial Brasilinvest, na capital paulista, hospitais e até ergueu casas para funcionários graduados da usina hidrelétrica de Itaipu. Foram os tempos de glória. Saudades do regime militar? Lindenberg, que politicamente é ultraconservador, nega. ?O Brasil está hoje em um bom caminho. O mercado imobiliário começa a se reaquecer após a paralisação provocada pela forte desvalorização do real em janeiro de 1999.? Ele prevê para 2001 uma expansão de 30% num mercado total de R$ 4 bilhões. Com 48 anos de experiência como empreendedor, reconhecido como especialista em moradias e católico praticante, Lindenberg curiosamente dedicou-se muito pouco a casas populares. Isso apesar da enorme carência do País. ?Fizemos algumas obras mais baratas. Mas nossa especialidade são mesmo os prédios de luxo.? A nova parceria com a Gafisa confirma esta vocação.