04/08/2004 - 7:00
Quase quatro anos atrás, em novembro de 2000, o banqueiro Emilio Botín virou motivo de piada entre seus pares. O mais poderoso financista da Espanha autorizara o Grupo Santander a desembolsar R$ 7 bilhões para arrematar o Banco do Estado de São Paulo (Banespa), pagando ágio de 281% sobre as ofertas da concorrência. Da perplexidade à chacota, os comentários de analistas e banqueiros davam conta de que os espanhóis tinham feito mau negócio. Naquele momento, a promessa feita por Botín aos acionistas, de colocar o Santander entre os 10 maiores bancos do mundo, foi tomada por bravata. Um corte de exatos 44 meses até a segunda-feira 26, quando o grupo cantábrico anunciou a compra do britânico Abbey National por US$ 15,6 bilhões, mancha de amarelo os sorrisos dos céticos. No novo ranking internacional do setor, o Santander aparece agora em primeiro lugar na zona do euro, em quarto na Europa e precisamente em décimo no mundo. O anúncio da aquisição do Abbey foi uma convincente exibição da musculatura adquirida pelos espanhóis. E esses músculos, ironicamente, foram ganhos em boa medida com muita ?malhação? em território brasileiro.
A operação do banco no País é a maior do grupo fora da Espanha, a mais rentável da América Latina e responde por 13% dos ganhos globais do conglomerado. O lucro acumulado desde a compra do Banespa é de R$ 6,5 bilhões, o que indica que, até o fim do ano, o valor investido na aquisição terá sido recuperado. É um retorno quase dois anos mais rápido que o obtido pelo holandês ABN, que comprou o Real em 1998 e só agora está próximo de amortizar o investimento. Mais: seu lucro de 36% sobre o patrimônio líquido em 2003 é o dobro da média do sistema bancário, graças, sobretudo, à carteira de títulos públicos herdada dos tempos de estatal. ?Comparado aos outros estrangeiros, como ABN e HSBC, o Santander está muito melhor posicionado no Brasil, com mais agências e clientes?, atesta Antonio de Mendonça Neto, da consultoria Solving International. É um cenário oposto ao da Argentina, onde o banco perdeu US$ 645,7 milhões nos últimos três anos.
Foi na América Latina que o Santander fez sua primeira incursão internacional e ganhou escala para conquistar outros mercados. Agora, paradoxalmente, o grupo é pressionado a reduzir sua exposição ao ?risco latino-americano? a fim de elevar seu rating. ?Para ser um banco de classe mundial, já era hora de fortalecer sua posição na Europa?, enfatiza Carlos Coradi, da EFC Consultores. A compra do Abbey Bank cumpre este papel, adicionando 18 milhões de clientes britânicos ao grupo e desobrigando-o de desfazer-se de ativos na Argentina, no Brasil, Chile ou México. ?Com a aquisição, o banco terá um bom grau de diversificação entre economias maduras e emergentes?, disse Botín à imprensa européia. Esta nova situação permite até pensar em uma nova incursão nos mercados latinos, eventualmente sob a forma de parcerias. Desde março de 2003, os espanhóis têm o Bank of America como sócio no México, com 24,9% do capital do Santander Serfin. Uma das possibilidades aventadas por analistas seria uma troca de ativos na região com os americanos, que desde outubro do ano passado controlam o BankBoston ? instituição com 60 agências e R$ 19,37 bilhões em ativos no Brasil. Seja este o caminho ou não, a atuação do Santander como protagonista da quinta maior transação da história envolvendo bancos europeus deixa uma lição aos que se pretendem analistas de mercado: Botín merece ser levado a sério.