No lugar dos índios da tribo parecis ? primeiros moradores do norte do Mato Grosso ? vive hoje, a 400 km da capital Cuiabá, a vanguarda do agribusiness brasileiro. São 13 produtores, vindos do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, que se uniram para formar o Condomínio Marechal Rondon. Juntos, fizeram fortuna com a soja, investindo em modernas técnicas de produção ? como a utilização de satélites para monitorar a aplicação de nutrientes e defensivos ?, e atualmente são donos de mais de 40 mil hectares de terra (o equivalente à metade da área do município de Campinas). A bem-sucedida experiência do trabalho em conjunto com os grãos rende, agora, novos frutos. Os ?condôminos rurais? partiram para a diversificação e, além da soja, passaram a cultivar o algodão nas fazendas de Campo Novo. Há até quem arrisque a sorte na pecuária. Seis produtores estão trabalhando com gado de corte e já se fala na construção de um frigorífico na região.

A receita de sucesso do grupo é a seguinte: em vez de adquirir insumos individualmente e em pequenas quantidades, tudo é feito coletivamente ? o que reduz os custos da operação. O mesmo acontece na hora da comercialização. Ninguém desgruda os olhos da Bolsa de Chicago, a maior do mundo na compra e venda de commodities agrícolas. Assim, sabem qual é o melhor momento para negociar. As transações são feitas em grandes lotes. No final da safra, os fazendeiros conseguem ganhos até 25% maiores do que os concorrentes. A previsão é que neste ano o lucro dos proprietários chegue a US$ 3,14 milhões ? cerca de US$ 40 por hectare de soja e US$ 350 por hectare de algodão. Da união dos agricultores, além dos lucros, surgiram duas novas empresas. Uma é a Kellen Indústria Têxtil, unidade para o descaroçamento do algodão. Quando vendem o produto em fardos, conseguem um preço melhor porque ele segue para o comprador já beneficiado. Além disso, repassam o caroço para a indústria que o transforma em óleo. Outra empresa do grupo é a Aliança, responsável pela compra e manejo de fertilizantes. Juntas, as duas receberam até hoje R$ 6 milhões em investimentos.

Além de comprar insumos e vender a produção sempre em grandes volumes, o Condomínio Marechal Rondon tem investido na qualidade das sementes e no desenvolvimento de novas variedades de soja e algodão. Sem tecnologia, eles sabem, não teriam o que oferecer além da concorrência. Assim, o grupo conseguiu ter produtos disputados por multinacionais como Cargill, Bunge e ADM. Cerca de 80% do que é colhido vai para o exterior. Depois que sai dos silos de armazenamento, o primeiro destino da produção é o porto de Paranaguá (PR) ou Porto Velho (RO). Ambos ficam distantes, por isso o frete é a principal desvantagem que os produtores de Campo Novo do Parecis têm em relação a outros Estados ou mesmo outras regiões agrícolas de Mato Grosso, como Rondonópolis, distante apenas 140 quilômetros de Cuiabá. Por causa do alto valor do frete, os 13 condôminos pensam em montar uma transportadora. ?Ao diminuir os intermediários na nossa operação, melhoramos os resultados?, diz o paulista Vitório Herklotz, um dos sócios. Para piorar o problema da distância e da localização, as estradas são precárias. E a aventura pode ser ainda mais arriscada dependendo do destino. Um caminhoneiro que viajar de Campo Novo do Parecis para Sapezal paga um pedágio de 5 reais cobrado pelos índios de uma reserva da região. Se não pagar, não passa.

Além do problema da localização (no norte do Mato Grosso, próximo à fronteira com o Estado de Rondônia), a falta de energia na região ainda é freqüente e a principal rodovia até hoje não foi asfaltada. O que compensa a aventura, além de terra barata, é o fato de as estações do ano serem bem definidas, o que facilita o planejamento para as safras. A cidade, que tem cerca de 18 mil habitantes segundo o último censo do IBGE, já é o quarto município em arrecadação do Estado. Um dos primeiros a se instalar na região foi Olacyr de Moraes, presidente do Grupo Itamaraty. Entre os produtores não há quem não comente sobre a importância do ex-rei da soja para a vocação agrícola da cidade. ?Ele trouxe as primeiras sementes de algodão para o Estado, e foi aqui, para Campo Novo do Parecis?, recorda-se Sérgio Stefanelo, produtor e secretário da Agricultura do município. Hoje, uma das variedades de algodão mais plantadas no Brasil é a ITA-90, nome dado em homenagem à Fazenda Itamaraty, onde foi desenvolvida. ?Fui pioneiro e não tenho do que me arrepender. Mato Grosso é hoje um exemplo para o resto do Brasil?, diz Moraes. O empresário aproveita e avisa: ?Depois da soja, o próximo a ganhar espaço será o algodão.? Ele tem razão. Dos 13 condôminos, sete já estão investindo na cotonicultura.

O algodão é uma das apostas do catarinense Odenir Ortolan. Mais da metade da sua fazenda de 3.400 hectares já tem a planta. O motivo é a promessa de maior lucratividade e a grande demanda que existe para esse produto. Para a próxima safra, o condômino já faz as contas. Espera ver seu faturamento crescer de R$ 6,5 milhões (safra 1999/2000) para R$ 8 milhões. ?Se investirmos mais para beneficiar o que produzimos, esses números serão ainda mais animadores?, diz. Os irmãos Utida, Antenor, Júnior e Ney Utida, donos de 8.400 hectares, também fazem parte do condomínio. Além dos negócios em grupo, eles aproveitam da flexibilidade da relação com os colegas para desenvolver novas frentes de trabalho. No ano passado, começaram a comercializar sementes de soja com a marca Gralha Azul. Segundo Júnior Utida, trata-se de mais uma fonte de renda. Eles também querem aumentar os investimentos em pecuária. Se o financiamento for aprovado pelo banco, eles vão ampliar a atual capacidade de confinamento de gado de 1.200 cabeças para 3.000. Em uma segunda fase do projeto, serão 10.000 cabeças. Além da paixão pela terra e pelos lucros, todos têm outra característica comum, a conhecida choradeira dos agricultores brasileiros. ?Não quero que ninguém pense que a vida por aqui é fácil. Trabalhamos muito para conseguir tudo isso?, frisa Ortolan. Os números mostram sua vida próspera. Em 1984, então com 18 anos, o produtor chegou à região com apenas dois tratores e muita disposição. Hoje são 15 tratores, seis caminhões e sete colheitadeiras (duas delas valem US$ 235 mil cada). Valor total do maquinário: US$ 1 milhão.