Em 1769, quando o escocês James Watt patenteou sua máquina a vapor, nasceram a Revolução Industrial e o capitalismo moderno. O progresso material se multiplicou, as cidades redesenharam os mapas dos países e, durante muito tempo, indústria foi sinônimo de poluição. De duas décadas para cá, as empresas viveram sua primeira onda ecológica. Começaram a tratar resíduos industriais e a buscar certificações de boa conduta ambiental, como ISO 14000. Há hoje, porém, uma verdadeira quebra de paradigmas no mundo corporativo. É no mundo corporativo. É a chamada Revolução Verde. A gestão ambiental, antes ligada apenas aos processos industriais, é hoje o foco central de grandes companhias. Em muitas delas, os engenheiros são quase ?ecoxiitas?. E cada novo produto que sai das pranchetas para as linhas de produção já é desenvolvido de acordo com uma filosofia ecológica. Nela, o que está em jogo é conseguir, sempre, mais por menos. Mais potência com menos consumo, mais desempenho com menos peso, mais eficiência com menos energia ? além, é claro, de uma melhor imagem corporativa.

 

Essa ?ecorrevolução? chega com a força da revolução de Watt. Ela não distingue indústria, comércio ou prestadores de serviço. Nem pequenas ou grandes companhias. Vale para todos. Gigantes como Boeing, General Motors e Fiat buscam maior leveza para seus produtos ? o que se reflete em menos consumo de petróleo. Ao mesmo tempo, essas empresas não poupam esforços para construir máquinas que usem combustíveis cada vez mais limpos. A Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, a fabricante de computadores Dell e a Philips também vêm lançando produtos com elevada eficiência energética. Outras companhias, como Michelin, MWM International e Starbuck?s, gastam boa parte de sua verba de pesquisa para encontrar matérias-primas que não agridam o meio ambiente. No varejo, o Wal-Mart aposta em produtos orgânicos, livres de pesticidas ou quaisquer outras substâncias químicas, em suas gôndolas. ?Cabe às empresas liderar o esforço pela preservação ambiental?, assinala Wilson Melo, vice-presidente da rede de supermercados no Brasil. ?É uma tendência nova e que é irreversível como em todas as grandes revoluções.?

Se mais é menos, a busca pela leveza ganhou status de prioridade nas montadoras. Na GM, a realidade virtual permitiu revolucionar o uso de materiais com a substituição parcial do aço pelo alumínio ou pelo plástico. ?Os veículos tendem a ficar cada vez mais resistentes com cada vez menos massa? afirma Pedro Manuchakian, vice-presidente de engenharia da montadora. Um dos exemplos que ele cita é o do Prisma Y, que foi desenvolvido pela engenharia nacional e deverá chegar ao mercado em breve. No Brasil, o plástico representa cerca de 90 quilos de um carro e a participação da matéria-prima cresce 15% ao ano ? nos carros novos lançados nos Estados Unidos, esse conteúdo petroquímico já chega a 120 quilos. ?A ordem é buscar leveza e com ela o baixo consumo de combustível?, explica Manuchakian. Essa corrida ecológica na indústria automobilística é tão intensa que hoje, em praticamente todas as montadoras, o eixo central das peças publicitárias tem apelo ambiental. A Toyota, por exemplo, fala em reduzir a zero suas emissões de poluentes. Sua rival Honda criou até um mote para suas campanhas chamado ?environmentology? ? que em tradução livre seria ?ambientologia? (confira imagem abaixo).

 

Na aviação, uma equipe da Boeing se debruça sobre os computadores para desenvolver os novos 787 Dreamliner, aviões de médio porte que percorrerão distâncias de até 15,7 mil quilômetros com consumo de combustível 20% inferior à de outras aeronaves. O segredo? Pura tecnologia. Um composto de materiais está substituindo o alumínio e já representa 50% dos materiais usados na fuselagem e na asa. No modelo anterior sua participação era de apenas 12%. Resultado: aeronaves mais leves e eficientes. A novidade, acredita a companhia, movimentará cerca de US$ 400 bilhões, com a venda de 3,5 mil unidades nos próximos 20 anos. Nessa busca pela eficiência energética, também aparecem carros movidos a policombustíveis (álcool, gasolina pura e gás natural) e eletrodomésticos de alta potência e baixo consumo. Os carros híbridos, que rodam com eletricidade e combustíveis fósseis, vêm se consolidando na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, eles ainda esbarram no preço. A Fiat já apresentou sua versão elétrica do Palio, mas ainda não definiu o lançamento. O mais viável, por ora, ainda é investir em tecnologias que aliem gasolina, gás e álcool. ?O carro híbrido vai demorar um pouco mais para chegar ao Brasil, mas virá?, aposta Carlos Henrique Ferreira, engenheiro da Fiat.

A eficiência energética é também um alvo central da indústria de eletroeletrônicos. Na Whirlpool, um refrigerador produzido hoje consome 47,7% menos energia para resfriar 8% mais de alimentos do que há 10 anos. As lavadoras, que em 1998 utilizavam 28,5 litros de água para cada quilo de roupa, tiveram o consumo reduzido em 60%, enquanto o uso de energia caiu 39%. Isso se traduz em benefícios diretos para os consumidores. ?Os recursos naturais são escassos e os produtores industriais têm de criar vantagens para o cliente?, diz Paulo Vodianitskaia, responsável pela área de meio ambiente da Whirlpool. ?O consumidor brasileiro ainda resiste em atribuir valor ao produto ecologicamente correto, mas isso irá mudar.? Na Philips já existem, segundo o executivo Márcio Quintino, gerente de qualidade e meio ambiente, mais de 160 itens certificados com o selo Green FlagShip, que é uma espécie de ?bandeira verde?. Juntos, esses produtos colaboram com US$ 2,4 bilhões na receita da companhia ? o dobro de 2004, quando foram lançados. Na Dell, fabricante de computadores, o recém-lançado desktop OptiPlex 745 tem desempenho 30% maior do que seu antecessor e consome 40% menos energia. ?Isso significará economia anual de US$ 1 bilhão no mundo?, calcula Ricardo Schiroma, gerente de produto da empresa.

 

Nessa nova perspectiva, os ajustes ambientaisnão acontecem apenas na ponta final, mas em todos os elos das cadeias produtivas. Na Michelin, o compromisso com a sustentabilidade aparece até no nome do produto. O ?pneu verde?, que continua negro, foi batizado dessa forma por suas características ecologicamente corretas. Graças à adição de 30% de sílica em substituição à parte do negro de fumo, uma matéria-prima poluente derivada do carbono, ele ganhou eficiência energética e vida útil 10% a 15% maior do que a de um pneu convencional. ?Se todos os carros e caminhões da Europa fossem equipados com os pneus verdes, 4,5 bilhões de litros de diesel e 1,5 bilhão de litros de gasolina seriam economizados por ano?, diz Luiz Roberto Anastácio, diretor da Michelin. Na área de motores, novas normas também impuseram uma meta de redução de poluentes. ?Vamos reduzir em 20% as emissões de gás carbônico em dez anos?, diz Domingos Carapinha, gerente de produto da MWM International Motores.

O apelo da ?ecorrevolução? é tão forte que chegou até mesmo ao mercado imobiliário. Em São Paulo e no Rio de Janeiro dois grandes empreendimentos auto-sustentáveis estão em andamento. Com investimentos de R$ 700 milhões e R$ 450 milhões, respectivamente, são construídos dentro dos preceitos U.S. Green Building Concil. Segundo Roberto Miranda, diretor de operações da incorporadora Tishman Speyer, isso inclui um sistema que gera energia elétrica do gás e não usa nenhum tipo de material inimigo do meio ambiente, como plástico ou isopor. Em escala menor, a rede de cafeterias Starbuck?s hoje só usa copos com fibras 100% recicláveis. E até o banco ABN-Amro adotou o sistema financeiro ecológico. Por lá, talões de cheque, extratos e qualquer tipo de documento só com papel reciclável. Mas, para grande parte dos consumidores, a parte mais visível da onda verde está nos supermercados. Há dez anos, o produto orgânico era raridade. Hoje, o mercado mundial já é de US$ 27 bilhões e a tendência também cresce no Brasil. No Wal-Mart, o objetivo é quadruplicar o portfólio de 150 itens em 18 meses. ?No Brasil, a demanda irá explodir e estaremos prontos para atendê-la?, prevê Wilson Melo, vice-presidente de assuntos corporativos da empresa.