Era para ser um interrogatório em que o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, sairia gravado com a marca do continuísmo, sofreria com a falta de uma proposta real de reforma tributária e teria poucos indicadores econômicos positivos a mostrar. Esqueceram-se, porém, de combinar com ele. Na noite da terça 11, Palocci reverteu a seu favor um enfrentamento de sete
horas no Senado, adiantou os próximos movimentos das
reformas e exibiu projeções favoráveis à economia brasileira.
Uma performance favorecida por um cenário animador. Em
2 de janeiro, o ministro estreou com o dólar a R$ 3,53. Na
terça em que foi sabatinado a moeda americana fechara em
R$ 3,48. O risco-Brasil, de 1.374 pontos em sua estréia, descera a 1.139. O C-Bond, no mesmo período, teve valorização de 15%. Havia mais. A primeira prévia para o Índice Geral de Preços no Mercado de março apontou inflação de 0,63%, contra 0,89% de fevereiro. Depois de aumentar juros duas vezes, elevar o superávit e dinamitar a idéia de um plano B, o ministro nunca esteve tão forte. ?Aqui, ele se mostrou muito preparado?, disse o senador Tasso Jereissati, expoente da oposição tucana.

Pela primeira vez, Palocci detalhou sua reforma tributária. Ela acaba com o ICMS, cria o Imposto sobre Valor Agregado, unifica nacionalmente a legislação e já conta com sete regras básicas de normatização. Um esquema traçado junto aos governadores que chegou na semana passada às mãos do presidente Lula para ser enviado ao Congresso. ?Vamos simplificar a tributação sem desequilibrar a arrecadação?, disse o ministro diante de pergunta do senador Aloizio Mercadante, seu principal crítico dentro do PT. Adiante, sem elevar o tom de voz, Palocci reagiu a uma questão tucana sobre as dificuldades de obtenção de crédito. ?Temos um grupo de técnicos trabalhando junto de universidades estrangeiras para encontrar meios de reduzir o spread bancário?, anunciou. ?Não sabemos até onde podemos ir, mas achamos que se pode baixar.?

Na mesma sabatina, o ministro do Planejamento, Guido Mantega, viu-se mais de uma vez envolvido em provocações destinadas a afastá-lo de Palocci. Com recortes de jornais antigos, senadores da oposição cobravam explicações de Mantega sobre suas declarações contrárias à presença do FMI no País. ?Era apenas uma manifestação de desejo, que continua valendo, mesmo que não seja possível fazer isso agora?, rebateu. Insistiu-se ainda que a gestão da dupla é ou a continuidade da política de Malan, ou sua evolução natural. ?Entre as palavras continuidade e evolução, prefiro mudança?, reagiu Palocci. Para
ele, a política econômica já está se diferenciando da anterior. Na abertura de sua performance, Palocci justificou a elevação do superávit com uma conta arrojada, defendendo sutilmente a reeleição de Lula. Em 2010, o ministro prometeu entregar o
País com uma dívida de apenas 41,34% do PIB. ?Estamos
preparando as condições para o crescimento da economia?,
garantiu. Se arranha os ouvidos dos adversários, o desempenho
de Palocci têm soado como música no mercado internacional. ?Estamos entusiasmados com os avanços macroeconômicos do governo Lula?, reagiu na quarta 12, em Madri, o diretor-gerente
do FMI, Horst Kohler. Em Brasília, o vice-presidente do Citibank, William Rodhes, fez coro. ?O Citi e os mercados internacionais estão muito impressionados com o trabalho do atual governo.? Nem A nem B, o plano agora é mesmo o P de Palocci.

Colaborou Janaína Leite