Uma fila de 15 mil pessoas, no Rio de Janeiro, simbolizou o ápice da crise do emprego no País em 2003. Aconteceu no dia 23 de junho, quando uma multidão se espremeu no Sambódromo para tentar uma vaga de gari na empresa municipal de limpeza, com salário de R$ 610. Eram tantas pessoas em busca de uma simples oportunidade que a fila terminou em tumulto com três feridos. A apoteose do desemprego revelou que a principal promessa de campanha do governo Lula, a de criar 10 milhões de postos de trabalho, ainda está muito, mas muito longe de ser cumprida. Em seus 12 primeiros meses no comando, os petistas viram o índice de desocupação medido pelo IBGE chegar a 13% ? um recorde histórico ? e o número de pessoas procurando por emprego crescer 21,7%. Além disso, até outubro, a renda média do trabalhador encolheu 11,61% e a informalidade avançou de tal forma que os brasileiros sem carteira de trabalho se tornaram maioria. Segundo analistas, a explicação para o fracasso governista é simples: sem crescimento econômico não há geração de empregos. ?O Brasil precisaria crescer a uns 6% por três anos para criar tantos empregos nesse prazo?, diz Sérgio Mendonça, coordenador do Dieese, que explica que a cada ano chegam 1,5 milhão de pessoas no mercado. É como se, num ônibus lotado, uma nova multidão tentasse entrar.

Com crescimento econômico próximo a 0,5% em 2003, o número de desempregados no País aumentou em 600 mil pessoas ? e isso só nas seis principais capitais medidas pelo IBGE. O exemplo da Volkswagen foi um dos mais extremos. Com vendas em queda durante todo o ano, a montadora alemã não teve outra alternativa: em julho, ?realocou? 4 mil empregados para o Autovisão, projeto criado para ajudar desempregados a se recolocar no mercado. Outra empresa que sentiu na pele a queda da demanda interna foi a Arno. Até abril, os resultados foram bem por causa das vendas de ventiladores. Passado o calor, os negócios desabaram e o volume de vendas chegou ao seu nível mais baixo em agosto. ?As vendas ficaram 10% a 15% abaixo de 2002?, disse o diretor comercial Roberto Mameri.

Na tentativa de amenizar o problema do desemprego, a principal investida do governo foi o Programa Primeiro Emprego, criado para estimular a geração de emprego para jovens de baixa renda entre 16 e 24 anos ? grupo que representa quase metade do total de desocupados. Inicialmente previsto para ser lançado em maio, o programa demorou a sair do papel. Após muitas trombadas, foi sancionado na última semana de outubro. Segundo o governo, 260 mil jovens serão empregados até 2004, fruto de um investimento de R$ 351 milhões. Mas mesmo pessoas próximas ao PT admitem que os resultados têm sido modestos.

Para ampliar a atuação do programa, a idéia do governo foi a de assinar convênios com empresas dando em troca benefícios fiscais. E, em alguns casos, isso funcionou. A Companhia Vale do Rio Doce irá oferecer outras 1.358 vagas e a Nestlé, mais 2 mil. ?Programas como esse funcionam em volume relativamente pequeno. Eles estimulam a geração de emprego mas não fazem milagres?, explica o especialista em relações trabalhistas José Pastore.

Na visão dos especialistas, a solução para o desemprego passa basicamente pela volta do crescimento, cujos primeiros sinais vieram no último trimestre do ano. Mas, até agora, os empresários ainda têm demonstrado hesitação em recontratar. ?Isso é um quadro natural de uma economia em recuperação?, explicou o secretário do Trabalho da Prefeitura de São Paulo, Márcio Pochmann. ?Os empresários só começarão a contratar se sentirem que o crescimento é consistente.? E esse ambiente, por enquanto, tem gerado aumento de produtividade. Estudo do Ipea mostrou que até setembro a eficiência da indústria brasileira aumentou 0,92%. ?Quando o cenário macroeconômico não inspira confiança, o empresário aumenta a jornada de trabalho?, explica Cimar Azeredo, do IBGE. O número médio de horas trabalhadas cresceu três horas em outubro deste ano em relação a 2002.

Outra questão que preocupa os analistas é que os poucos postos
de trabalho que foram criados em 2003 confirmaram a tendência do avanço da informalidade. Em janeiro, trabalhadores com carteira assinada representavam 45%, enquanto os sem carteira eram 40,9%. Nove meses depois, os formais caíram para 43,6% enquanto os informais avançaram para 42,7%. Isso sem levar em conta empregadores, autônomos e trabalhadores da área rural. Ou seja,
na prática, os sem-carteira já são maioria. ?Esses trabalhadores chegarão à velhice sem proteção social e com níveis de renda
baixos?, explica Mendonça.