O economista Elson Teles é craque num jogo bem brasileiro. Há mais de 15 anos, ele se dedica à inflação. Estudioso de como o IBGE e a Fundação Getúlio Vargas calculam seus índices, Teles repete o método todas as semanas no banco Boreal. Dois pesquisadores de sua equipe coletam os preços de seis mil produtos. Com os dados na mão, o economista aplica seu modelo, calcula e faz seu lance. Ninguém acerta mais do que ele. Teles é o campeão de projeções de inflação, entre 90 bancos, consultorias e empresas. ?O mercado é meio míope?, diz ele. ?É preciso ir além do consenso.? Teles faz parte de uma nova elite financeira, uma seleção de economistas que ocupa o alto de um pódio definido todos os meses em pesquisa do Banco Central.

Esses analistas financeiros são especialistas em prever as taxas de inflação, juros e câmbio. Tradicionalmente, profissionais como eles sempre trouxeram muito dinheiro para bancos e empresas. Mas, durante o Plano Real, a inflação e o câmbio ficaram estáveis e as instituições financeiras desmontaram seus departamentos dedica-
dos a medir a hiperinflação dos anos 80. Com a desvalorização do real, em 1999, as oscilações dos índices voltaram a mexer com os negócios. Desde então, os palpites dos economistas não só se valorizaram, como agora pode-se saber com precisão quem mais acerta ou dá bola fora.

O BC reúne todos os meses as projeções de três indicadores de inflação (IPCA, IGP-M e IGP-DI), juros (Selic) e câmbio. O chamado Boletim Focus serve para medir o pulso do mercado e ajudar o BC a tomar decisões, principalmente sobre juros. ?Antes, era feita uma consulta informal por telefone?, conta Pedro Fachada, chefe da gerência de relações com investidores do BC. ?Agora temos uma amostra precisa.? Além de divulgar uma média das expectativas, o BC faz um ranking das projeções anteriores que chegaram mais perto dos índices. A lista dos Top 5, como é conhecida, se tornou uma seleção de alguns dos profissionais mais valorizados do mercado.

Durante 14 anos, o economista Eduardo Marques trabalhou com Teles medindo a inflação para os bancos Icatu e Boreal. Em meados do ano, recebeu convite para descer um andar em seu prédio e trabalhar no Opportunity. Eduardo montou uma equipe de coleta de preços e levou o banco ao segundo lugar nos rankings de inflação. Mais do que isso: ao antecipar forte queda dos índices, os administradores de fundos do banco apostaram na redução dos juros. ?Ao perceber a virada dos preços, nos antecipamos?, diz Gino Oliveira, diretor do departamento econômico. O fundo Opportunity Total FIF rendeu 233,8% do CDI, o melhor resultado da categoria. Um terço veio da aposta nos juros.

Boreal, Opportunity e Icatu, do Rio de Janeiro, têm métodos parecidos, dos tempos da superinflação dos anos 80. Sempre aparecem entre os primeiros nos rankings. Desde o início do ano, o Boreal não perdeu um mês sequer na previsão do IPCA. Nos outros índices, IGP-M e IGP-DI, aparecem com freqüência os paulistas Safra e Itaú/BBA. O método do Itaú/BBA é bem diferente dos concorrentes cariocas: além de estudar a conjuntura, o economista Alexandre de Azara inverte os papéis e liga para os clientes. Pergunta o quanto os empresários vão repassar da variação do dólar para os preços. ?É um dado subjetivo, mas faz toda a diferença?, diz Azara.

?As previsões são uma mistura de ciência e arte?, define José Antonio Pena, economista-chefe do BankBoston, em segundo lugar no ranking de juros (Selic) de 2003. Uma das técnicas de Pena é simular com sua equipe uma reunião do Copom, em que o BC define as taxas. ?O mais importante não é tentar antecipar a decisão, mas discutir como o BC deveria agir?, diz. ?A médio prazo, a lógica da economia sempre prevalece.? O primeiro da lista da Selic também atribui seus resultados à experiência de seus economistas. ?Nossa especialidade é crédito?, diz o diretor do Cruzeiro do Sul, Luís Octavio da Costa, ?Precisamos de sensibilidade apurada.?

Essa sensibilidade pode ser medida em números: no Alfa, 15% dos ganhos com aplicações do banco vêm do dólar. ?Não investimos mais porque esse mercado é instável e somos conservadores?, diz o diretor Ivan Dumont. Seu método para alcançar mais de seis vezes o topo do ranking do câmbio em 2003 é mapear cada entrada e saída de dólares no País. Segunda do ranking, a consultoria LCA também tem o seu mapa do câmbio, mas atribui o acerto a uma avaliação correta da política econômica e do ambiente internacional. ?Estimulamos os nossos 30 economistas a debater bastante?, diz Fernando Sampaio, da LCA. Seja por um motivo ou por outro, os palpites certeiros de inflação, câmbio e juros voltaram ao centro dos negócios (no passado, motivaram até denúncias de informação privilegiada). Valem muito dinheiro. Num mercado míope, como define o campeão da inflação, Elson Teles, quem vê mais longe é rei.