30/07/2003 - 7:00
Ainda não existe uma data precisa, mas já é certo que entre o final de agosto e o início de setembro o primeiro-ministro Tony Blair comparecerá à sala 73 da Corte Real de Justiça, em Londres, para prestar depoimento. As câmeras de TV registrarão sua entrada e serão desligadas, mas os jornalistas permanecerão na sala durante o interrogatório. Como se fora um cidadão comum, o líder britânico terá que responder perguntas diretas e desagradáveis sobre a sua participação no Caso Kelly: o confronto entre o governo e a BBC que, aparentemente, causou o suicídio do cientista David Kelly, funcionário do Ministério da Defesa. O espetáculo jurídico envolverá os auxiliares diretos de Blair, ficará no ar todo verão e pode terminar com a renúncia do primeiro-ministro.sobre a sua participação no Caso Kelly: o confronto entre o governo e a BBC que, aparentemente, causou o suicídio do cientista David Kelly, funcionário do Ministério da Defesa. O espetáculo jurídico envolverá os auxiliares diretos de Blair, ficará no ar todo verão e pode terminar com a renúncia do primeiro-ministro.
Blair está no poder desde 1997 e nunca viveu uma ameaça
tão séria. A invasão do Iraque já havia reduzido sua base de
apoio e a morte de Kelly em meio a um inquérito parlamentar
ampliou o estrago. Agora, mais de 57% dos britânicos desaprovam o desempenho do primeiro-ministro e apenas 37% continuam apoiando sua atuação. Quase 40% dizem que ele deveria renunciar. Se o próximo inquérito vinculá-lo de alguma forma ao suicídio do cientista ? que tomou uma caixa de analgésicos, sentou sob uma árvore e abriu um talho no pulso esquerdo com uma faca doméstica ? é possível que Blair perca o emprego. Basta para isso que seu partido o destitua da liderança ou que a Câmara dos Comuns passe um voto de desconfiança contra ele. Com a esquerda dos trabalhistas sublevada e a oposição conservadora sentindo cheiro de sangue, essa hipótese tornou-se plausível ? apesar dos trabalhistas terem 419 das 658 cadeiras do parlamento.
Para que Blair escape ileso, uma outra instituição britânica terá de ser sacrificada: a poderosa British Broadcasting Corporation, BBC. Foi a respeitada emissora estatal quem pôs no ar em 29 de maio passado uma reportagem do jornalista Andrew Gilligan, acusando o governo de ter ?apimentado? as informações usadas para justificar a invasão do Iraque. A fonte da informação foi mantida em sigilo, mas o governo descobriu que se tratava de Kelly, um ex-inspetor de armas da ONU que participara de reuniões de gabinete durante a crise iraquiana. A equipe de Blair estava desesperada por informações que justificassem a invasão e pressionou os técnicos para que encontrassem qualquer coisa. Quando essa denúncia foi ao ar, o próprio Kelly procurou o secretário de Defesa para contar que fora ele quem falara com o jornalista. Alguém no governo ? suspeita-se que o próprio secretário, Geoff Hoon ? decidiu expor o cientista para forçá-lo a desmentir a BBC. Para não vazar o nome diretamente, usou-se um ardil: sugeriu-se aos jornalistas que escrevessem listas de funcionários do governo e nelas se apontava Kelly. Em poucos dias sua foto estava nas primeiras páginas como peão da controvérsia. O governo acusava a BBC de ter esquentado suas declarações. A emissora escondia sua fonte, mas dizia ter fitas gravadas provando o teor das denúncias. Kelly, acossado e deprimido, saiu de casa uma tarde e não voltou. Até o fim afirmava não ser ?a única? fonte da TV. No dia seguinte à sua morte a BBC admitiu que ele era o informante.
?Não autorizei o vazamento do nome de David Kelly?, defende-se
Blair. ?Esse assunto estava a cargo do Ministério da Defesa?. Na quinta-feira ele voltou a Londres depois de uma semana de tumultuada viagem pela Ásia em companhia da mulher, Cherie. Em Tóquio ouviu de um jornalista a pergunta mais constrangedora de sua carreira política: ?O senhor está com as mãos sujas de sangue, primeiro-ministro?? Ouviu, abaixou a cabeça e não respondeu. Dono de um mandato que vai até 2006, seu único consolo é que a BBC também está em apuros. 35% dos britânicos acham que a emissora agiu mal no episódio de Kelly e cresce no parlamento a idéia de passar-lhe o arreio. A empresa tem orçamento de US$ 4,2 bilhões, é mantida por uma licença que todo cidadão britânico paga anualmente para ver televisão e goza de absoluta independência. A direita sempre quis amordaçá-la e os trabalhistas sempre se opuseram. Agora que foram mordidos talvez mudem de idéia.