Hoje se sabe que aquela manhã de final de verão em Nova York estava condenada. Às 8h48, quando o Boeing 767 da United explodiu contra a torre do World Trade Center, em Manhattan, do outro lado do mundo um terrorista de nome Osama Bin Laden pediu aos seus acólitos: paciência, haverá mais. Dezoito minutos depois, o vôo 11 da American com 92 pessoas a bordo arrebentou-se em chamas contra a segunda torre. Estava configurado diante das câmaras, de maneira grotescamente pós-moderna, o maior e mais sangrento atentado terrorista da História, responsável pela morte de 3.900 pessoas apenas no distrito financeiro de Nova York.Nem seriam necessárias as 200 mortes no Pentágono, onde outro Boeing caiu às 9h45, ou a queda na Pensilvânia do vôo 93 da United, às 10h10 da mesma manhã, para caracterizar aquele 11 de setembro como um divisor de águas. A obra em sangue e fogo da Al Qaeda inaugurou um novo tempo e criou um novo mundo ? ambos piores do que os anteriores.

Nesse novo planeta, segurança tem precedência sobre prosperidade. Está enterrado sob as areias do Afeganistão o mundo utópico dos liberais, aquele que seria regulado pela lógica do comércio e das finanças e no qual Estados e exércitos seriam apenas brinquedos anacrônicos. Desde os atentados o planeta retornou ao tempo branco e preto da Guerra Fria. Um conflito em escala global opõe terroristas islâmicos às potências ocidentais e todos são chamados a alinhar-se, de um lado ou de outro. E quem tem mais a oferecer militarmente vale mais. Hoje é mais fácil o Paquistão conseguir um agrado de Washington ? como já está acontecendo ? do que o Brasil obter uma concessão do Departamento de Comércio. No campo da produção industrial, antes autônomo, o fluxo de mercadorias está sendo revisto para acomodar exigências policiais de controle. E há a recessão mundial. Ela era um possbilidade antes de setembro e agora converteu-se em fato. A globalização econômica não vai acabar, mas desde o 11 de setembro seu ritmo e intensidade diminuíram ? assim como se reduziu, entre os jovens dos países ricos, o engajamento radical antiglobalização. Os manifestantes de máscaras passaram a fazer parte de um cenário que, no limite, inclui gente como Bin Laden. Isso não ajuda a atrair pacifistas e moderados.

É no interior dos próprios Estados Unidos, porém, que os novos tempos estão se fazendo sentir com mais veemência. O país que se julgava invulnerável descobriu que pode ser ferido, e isso vai acentuar a tendência paranóica de uma sociedade já desconfiada. Grupos intensamente auto-confiantes, como os operadores de mercado de Wall Street, sabem agora que existe uma multidão lá fora que não gosta deles. Discute-se agora nos EUA, com naturalidade, métodos de controle social que antes o país se recusava a adotar. Parte dos direitos civis e da generosidade da sociedade americana pode ter sido sepultada sob os escombros do World Trade Center.