14/09/2001 - 7:00


Eles partiram. Ao longo de toda a semana, o presidente George W. Bush conviveu com uma equação de duas incógnitas para levar adiante a operação Justiça Infinita, como messianicamente foi batizada a ação militar desencadeada para capturar Osama Bin Laden. De um lado, precisava dar uma resposta concreta e firme ao desejo de vingança que tomou conta da sociedade americana desde 11 de setembro, quando as torres do World Trade Center vieram abaixo. O efeito de declarações que, ao melhor estilo John Wayne, exigiam Bin Laden ?vivo ou morto? se esgotaria rapidamente sem o disparo de pelo menos um tiro. Por outro lado, Bush temia a reação a um ataque de grandes proporções numa região marcada pelo fanatismo religioso e pelo sentimento antiamericano.
A movimentação das tropas americanas era acompanhada por outro tipo de mobilização. Sob a liderança dos americanos, países europeus e asiáticos procuravam desviar a economia do planeta daquele que parece ser inapelavelmente seu destino: a recessão. Entrou em cena o inefável Alan Greenspan, presidente do FED, o banco central dos EUA. Na segunda-feira, ele anunciou a redução da taxa de juros para 3%, a oitava baixa neste ano, e foi seguido pelos demais países. Na verdade, o mundo está mergulhando em duas guerras. Uma delas ocorre no Mediterrâneo e terá efeitos diretos sobre todos os setores da produção. Outra tem como campo de batalha o mercado de capitais. As bolsas do mundo despencam sem parar.
Pacote de US$ 15 bi. O governo americano demonstra disposição em injetar ânimo na economia. Um pacote de US$ 15 bilhões foi destinado às companhias aéreas ? US$ 9 bilhões a menos do que o solicitado por elas. O orçamento do Pentágono será reforçado com US$ 70 bilhões entre 2001 e 2002. Outros US$ 20 bilhões foram reservados para a reconstrução de Nova York. Bush ainda estuda reduções em diversos impostos.
Foi justamente para tentar evitar que as possíveis bombas da ?Justiça Infinita? não destruam também a economia mundial que Bush planejou cuidadosamente uma intensa agenda de compromissos na semana passada. Além disso, queria demonstrar apoio internacional à operação militar. Em Washington, Bush recebeu a visita de seus dois principais aliados na Europa, o presidente francês Jacques Chirac e o premier da Inglaterra Tony Blair. Enfáticos na condenação ao terrorismo e em garantir a segurança econômica, os dois foram cautelosos na defesa de ações armadas. Em outro momento de forte impacto simbólico, Bush visitou o Centro Islâmico de Washington e encontrou-se com lideranças religiosas. Com o gesto, procurou interromper a escalada da violência contra americanos de origem árabe. Em poucos dias, foram quase 500 agressões físicas e ataques com tiros e bombas caseiras a mesquitas e lojas.


O ápice da marcha de Bush ocorreu na quinta-feira. Durante a visita de Blair, ele fez um vigoroso discurso no Capitólio. Interrompido inúmeras vezes pelos aplausos dos congressistas de pé, o presidente mais uma vez declarou guerra incansável contra o terrorismo, utilizando meios diplomáticos, financeiros, policiais e militares. Por fim, deixou claro a posição que espera dos demais países. ?Ou os países estão com os Estados Unidos ou estão com os terroristas?. Bush aproveitou a ocasião para falar de economia. ?Um terrorista pode atacar o símbolo da economia, mas não sua fonte.? A frase é bonita, forte, mas principalmente retórica. Junto com as torres gêmeas, veio abaixo qualquer esperança de retomada rápida do crescimento. No mesmo dia e na mesma cidade em que Bush era ovacionado pelos parlamentares, representantes das finanças internacionais reuniram-se e concluíram que a economia americana não crescerá mais do que 1% em 2001. ?O ataque foi um golpe forte para a economia, mas vamos responder?, admitiu Bush dias antes. Setores atingidos pela tragédia pediram ajuda financeira. Na carona das companhias aéreas, siderúrgicas pediram proteção contra produto estrangeiro, pois consideram uma questão de interesse nacional. Administradoras de aeroportos também querem US$ 1 bilhão para investir em segurança.
Presença do Estado. Esse movimento provocará mudanças profundas nos modelos econômicos. O aumento da presença do Estado na economia significará uma pancada fatal na ideologia neoliberal que alguns países, como o Brasil, levaram a sério. O apelo à presença do Estado é típico em momentos de crise profunda. Em 1939, na aurora da Segunda Guerra Mundial, os gastos do governo americano representavam 15% do PIB. Em 1945, esse porcentual havia se elevado para 45%. ?Espero que o governo aja substancialmente?, disse William Ford Jr., presidente mundial da Ford. Nunca em sua história o gigante americano esteve em uma situação tão favorável para tentar desempenhar o papel de salvador da pátria econômica. Na Guerra do Golfo, por exemplo, o país estava estrangulado por um déficit fiscal que tirava o sono do então presidente George Bush. Hoje, seu filho possui à sua disposição um superávit de US$ 170 bilhões. Possui também espaço para ocupar. Os gastos governamentais caíram de 20,4% do PIB para 17,6% no ano passado, menor nível desde 1948.
É esse dinheiro que servirá de oxigênio para reativar a economia americana e, por tabela, a mundial. A grande dúvida é a seguinte: haverá tempo para revitalizar uma economia que já se encontrava em rota descendente antes que os terroristas lançassem aviões sobre as torres gêmeas?
Queda das exportações. Nos últimos 12 meses, o PIB americano registrou expansão de apenas 1%. Em julho, as exportações do País caíram US$ 2,2 bilhões e as importações, US$ 2,4 bilhões. Um relatório do Institute of International Finance, IIF, revela que o fluxo de capital para os mercados emergentes cairá de US$ 167 bilhões em 2000 para US$ 106 bilhões neste ano. É esse dinheiro que financia as contas de países como Brasil e Argentina. ?Esse é o cenário mais sombrio, com menores fluxos, desde a crise do início dos anos 80?, disse a DINHEIRO Charles Dallari, diretor geral do IIF. O Livro Bege, o relatório mensal do FED, lembra que esses dados foram coletados antes de 11 de setembro, ?refletindo assim a atividade econômica anterior aos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono?.
Os efeitos econômicos até agora foram dramáticos. A Bolsa de Nova York acumulava até o final da manhã de sexta-feira uma queda de 18% na semana ? ou seja, US$ 1,2 trilhão se evaporaram no valor das companhias americanas. O desemprego pode atingir 5,5% da força de trabalho americana. As companhias aéreas já anunciaram cortes superiores a 100 mil vagas. As perdas das companhias de seguro podem somar US$ 40 bilhões, segundo o Morgan Stanley. Enfim a guerra contra a recessão será longa e sofrida, assim como a operação Justiça Infinita.