15/12/2004 - 8:00
O gaúcho Fernando Madeira engana pela aparência. Aos 34 anos, ele até lembra aqueles garotos da época de ouro da internet. Começou aos 19 anos numa pequena empresa de tecnologia, é dono de um estilo informal de vestir e falar com os seus interlocutores, gosta de esportes radicais e conheceu de perto a febre de oportunidades do Vale do Silício, o berço das companhias de tecnologia dos Estados Unidos. A diferença entre Madeira e outros que tentaram seguir o mesmo caminho é o cargo que ele ocupa atualmente: presidente da maior empresa de internet do Brasil, o provedor Terra, do grupo espanhol Telefônica. A importância da subsidiária brasileira pode ser medida pela atenção dispensada pelos espanhóis aos números locais. Foi neste ano que o Terra se tornou a maior companhia de internet do País, deixando para trás o seu adversário histórico, o Universo On Line, do grupo Folha da Manhã, que edita o jornal Folha de São Paulo. O Terra possui 1,7 milhão de assinantes e metade dos usuários de banda larga do País. São 850 mil pessoas em todos os Estados que acessam arede em alta velocidade pelas conexões da empresa. ?Ele sempre superou todas as expectativas e continua fazendo um excelente trabalho?, afirma Marcelo Lacerda, criador da empresa Nutecnet, em seguida ZAZ e o primeiro presidente do Terra sob a gestão espanhola. Lacerda era um dos donos da companhia da qual Madeira foi um dos primeiros empregados. O sétimo para ser mais exato. ?Os resultados são muito positivos?, diz Lacerda.
Nesse ponto Madeira se distancia ainda mais dos garotos da época dourada da internet. Graças aos ensinamentos dos seus colegas de Nutecnet que nunca se deslumbraram com o glamour do mundo virtual e sempre focaram a qualidade do produto como diferencial de mercado, Madeira absorveu todas as lições. Ele é comprometido com resultados, preocupado com o desempenho das suas receitas e dono de uma grande capacidade de alavancar o faturamento do seu negócio com a introdução de novas fontes de recursos. Uma espécie de garoto-prodígio da economia virtual. Outro aspecto da sua gestão: ele só viaja de classe econômica para as reuniões na matriz. Uma jornada que pode durar até 11 horas numa poltrona desconfortável. ?É mais barato e dessa forma sempre vai mais alguém comigo nessas reuniões?, diz. No ano passado, o Terra faturou R$ 467 milhões no País. Para 2004, os números não estão fechados e nem a empresa os divulga, mas o mercado estima que seu líder crescerá 20%. No cargo de presidente há dois anos, Madeira conhece como poucos a operação brasileira. Foi o responsável pela área de acesso, o coração da companhia, e diretor de marketing. Nesse intervalo, acompanhou de perto a transformação do pequeno provedor de internet de Porto Alegre, onde começou sua trajetória, que primeiro despertou o interesse do grupo RBS do Rio Grande do Sul e depois dos espanhóis. ?A empresa está fazendo um trabalho muito consistente?, afirma Pedro Cabral, diretor da AgênciaClick, de publicidade on-line.
A banda larga é hoje o grande negócio da internet. A época da conexão lenta, telefones ocupados e páginas que demoravam para aparecer na tela do PC faz parte de um passado recente. O grande mérito do Terra foi perceber há dois anos que o futuro estava nessa tecnologia. A virada em direção à estrada de alta velocidade aconteceu sob seu controle e os primeiros alvos foram os próprios clientes do provedor, que receberam uma série de ofertas para trocar de lado na rede. O próprio presidente sentou em uma das cadeiras de atendimento do call center para demonstrar aos seus assinantes que valia a pena a migração para a banda larga. Essa receita hoje é seguida por outros diretores que costumam ir para centrais de atendimento entender os problemas dos consumidores. O atual número de assinantes de acesso rápido prova que a estratégia estava certa. A taxa de crescimento de novos clientes de banda estreita, conhecida como dial-up no jargão do setor, é de apenas 1,5% ao mês, o percentual da base de banda larga supera a casa dos dois dígitos. Outro ponto positivo do trabalho de Madeira foi alcançar esses resultados sem criar arestas com os seus superiores. Mesmo sendo uma subsidiária, engessada pelas determinações da matriz, o Terra Brasil é dono de uma agilidade incomum em empresas do seu porte. Mérito do seu presidente e da cultura deixada pelos pioneiros da empresa, que sempre se pautaram pela liberdade de ação.
Parte do sucesso está na visão que a companhia tem da internet. O provedor sempre enxergou a rede como um ambiente de serviços. Ao abrir a página da empresa é fácil perceber essa realidade. Há uma grande quantidade de ofertas que variam desde o acesso a conteúdos especiais, como o infantil da Disney, até recursos de proteção de e-mail contra vírus e as mensagens indesejadas conhecidas como spams. Essa estratégia facilita o aumento do valor médio de uma assinatura do Terra. Cada uma dessas novidades custa mais para os assinantes, que pagam entre R$ 3,90 até R$ 29,90 por esses benefícios adicionais, que podem até incluir os vídeos com os melhores momentos do campeonato europeu de futebol. ?Vamos reinventar a internet unindo banda larga e celulares?, diz Madeira. A estratégia para 2005 seguirá a receita de colocar nas mãos dos assinantes um poder de comunicação só hoje visto nos PCs com internet rápida. O provedor prepara uma série de novidades que começam a ser lançadas ainda nos primeiros dias do ano. ?Vamos consolidar nossas posições e ampliar a quantidade de ofertas para esse novo mundo?, afirma o presidente de Terra. Quem conhece Fernando Madeira sabe que ele não brinca em serviço.