Em 2002, a ABC Táxi Aéreo estava diante de um dilema: abandonar o transporte de carga, que lhe rendia R$ 3 milhões por ano, ou desembolsar dezenas de milhões de dólares na compra de aeronaves de maior porte para continuar nesse filão? Graças à criatividade do engenheiro Fernando Moraes, 33 anos, a empresa manteve-se no negócio gastando módicos R$ 100 mil. A verba foi usada no desenvolvimento de um contêiner em forma de gaiola capaz de transportar 70 quilos de carga com a máxima segurança.

?A peça é tão versátil que permite reconfigurar a aeronave (para carga ou passageiros) em 30 minutos?, explica Moraes. O produto ganhou o selo de aprovação do Departamento de Aviação Civil (DAC) e já está sendo vendido a outras companhias. Essa é uma das invenções que levam a assinatura dos funcionários do Grupo Algar. Desde 2000, 276 projetos foram inscritos numa espécie de usina interna de idéias, o Programa de Gestão de Processos (PGP). Eles consumiram R$ 5,6 milhões e geraram economia de R$ 90 milhões à empresa, que atua também em telecomunicações, agronegócio e turismo, com receita de R$ 1,8 bilhão. ?Mais do que reduzir custo, a iniciativa estimula a criatividade e o empreendedorismo dos funcionários?, diz Luiz Alexandre Garcia, herdeiro e vice-presidente do conselho. Uma boa idéia poder render até R$ 5 mil ao inventor.

Técnico de manutenção na ABC Inco, o braço agropecuário do grupo, Amadeu Garrossini, 64 anos, já ganhou até o apelido de Professor Pardal. Ele criou um sistema de reaproveitamento de peças para melhorar o desempenho de uma linha de envase de óleo de soja. O serviço, feito por uma máquina antiga, não rendia o esperado. Pior: gerava desperdício. ?Ela deveria encher 350 latas por hora, mas mal atingia 250?, recorda Garrossini. Cinco meses depois que ele assumiu o equipamento a produtividade chegou ao nível desejado. Hoje já está em 380 latas por hora. ?Criamos novos bicos de enchimento e um sistema de alimentação através de esteira?.
A despesa com manutenção caiu à metade,
para R$ 28,4 mil.

Na ACS, a empresa de call center, o desafio era reduzir o gasto com a compra de computadores para os operadores de telemarketing. Primeiro criou-se um programa para integrar telefonia e computação. Em seguida, a ?inteligência? do sistema foi concentrada em um conjunto de servidores, abolindo a necessidade de manter uma CPU para cada operador. ?Agora, eles estão conectados diretamente ao cérebro do sistema?, explica Emerson Ferreira, analista de suporte, 32 anos. Para chegar ao formato, aparentemente simples, foi preciso reunir 40 técnicos e investir R$ 1,6 milhão. A economia no primeiro ano foi de R$ 1,2 milhão.

O PGP é, na verdade, parte de um amplo programa de restruturação. Depois do bem-sucedido processo de renegociação da dívida de R$ 450 milhões, a Algar está pronta para voltar a crescer. Os melhores resultados são esperados para a CTBC, que atua no interior de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e São Paulo e cuja divisão de telefonia celular quase foi vendida à Telemig em 2003. Em dezembro, a operadora vai adicionar a tecnologia GSM ao seu portfólio e concorrer com TIM e Oi em nível nacional. Também irá expandir a telefonia fixa para São Paulo e Belo Horizonte. Até a CTBC já se beneficiou do PGP. O analista de interconexão Antônio dos Santos, 44 anos, bolou o sistema que pôs fim às fraudes em orelhões. Por causa de ?gatos? e cartões piratas, a empresa registrava chamadas internacionais de 30 horas ininterruptas feitas de telefones públicos. Santos lançou um programa de monitoramento e, agora, quando é detectado algum abuso a conexão é interrompida automaticamente. O investimento no projeto: R$ 5 mil.

No agronegócio, o plano é construir outra fábrica de óleo e farelo de soja, com produção direcionada totalmente ao mercado externo. O local e o investimento ainda não foram definidos. ?O que posso dizer é que vamos triplicar nossas exportações para US$ 120 milhões?, estima Garcia. Mas se as previsões de crescimento não se confirmarem ele já sabe a quem recorrer: a seus cientistas de chão de fábrica.