É provável que o consumidor brasileiro ainda não saiba, mas há uma montanha de dinheiro à sua espera ? desde que ele seja um trabalhador com carteira assinada. São cerca de R$ 25 bilhões que bancos e financeiras reservaram para o sistema de financiamento lançado recentemente pelo governo, o crédito com desconto na folha de pagamento. Para colocar a mão nesses reais, o sujeito sequer precisa se deslocar até uma agência bancária. Basta ir ao departamento pessoal ou a uma banquinha armada no pátio da fábrica ou até mesmo a uma van estacionada
em frente ao portão de entrada da empresa. As instituições financeiras estão criando novos pontos de venda para atrair e conquistar esses clientes em potencial. O maior atrativo, porém,
são os juros, de 1,75% a 3,30% ao mês, conforme o prazo do empréstimo. Ainda são taxas ?ofensivas?, como diria o vice-presi-
dente da República José Alencar. Mas estão bem abaixo daquelas cobradas no cheque especial e no CDC (o crédito direto ao consumidor), que atingem em média 6% ao mês.

Assim, os bancos vão concorrer com seus próprios produtos. ?O crédito mais caro será canibalizado pelo mais barato?, diz Bento Furtado de Mendonça, sócio da consultoria Solving International. Para manter pelo menos a margem de lucro, o volume de empréstimos concedidos terá que crescer. Por isso, nos últimos dias os bancos se mexeram intensamente para se adaptar ao novo negócio. Uma das primeiras tacadas veio do Santander. O banco assinou contrato com a CUT, Força Sindical e CGT. Agora, todas as empresas na base destes sindicatos poderão fechar parceria com o Santander. Os espanhóis têm R$ 10 bilhões para emprestar. Nos próximos quinze dias, a instituição já atenderá pelo menos 50 empresas. Para isso quiosques serão instalados dentro das companhias e vans estacionarão nos pátios para facilitar o acesso dos trabalhadores ao serviço.

Nenhum banco terá exclusividade com as empresas, que poderão trabalhar com quantas instituições quiserem. ?A concorrência será intensa. Por isso saímos na frente para não perder tempo?, diz José de Paiva Ferreira, vice-presidente de marketing do Santander. O Unibanco, por sua vez, colocou uma equipe de 40 pessoas para vender essa modalidade. ?É o primeiro movimento de expansão de crédito no País e não podemos ficar de fora?, afirma Rogério Estevão, diretor de produtos do Unibanco. A instituição tem R$ 3 bilhões em caixa para destinar a financiamentos.

Nessa corrida, o mineiro BMG leva certa vantagem, pois já oferece desconto em folha de pagamento, principalmente ao funcionalismo público. ?Saímos na frente dos bancos de rede porque só trabalhamos com esse produto?, diz Roberto Rigotto, vice-presidente do BMG. Para driblar a concorrência, os diretores do Banco do Brasil têm uma lista de empresas interessadas no crédito e a equipe de vendas já foi para as ruas. O banco quer emprestar R$ 2 bilhões até final de 2004. A aposta dos bancos não é por acaso. O que atrai o sistema bancário é a baixa inadimplência do novo produto. ?O risco será baixíssimo?, diz Décio Tenerello, vice-presidente do Bradesco. O maior banco privado do País vai destinar R$ 10 bilhões para essa linha. Com tanta oferta, não vai faltar quem queira dinheiro emprestado.