01/04/2002 - 7:00
Brasileiro algum com menos de 60 anos pode ter lembrança de um tempo em que aplicar dinheiro em juros tenha sido um mau negócio. Nesse período as taxas no País foram sempre muito altas, e os fundos de renda fixa e de DI, que servem de veículo para se investir nelas, nunca deixaram de ser um bom investimento. Impossível prever resultado diferente para quem confiar na regularidade desses fundos em 2002. Mesmo nas projeções mais modestas, economistas e analistas de mercado não conseguem sequer pensar em juros reais inferiores a 10% no ano. Mas o cenário todo particular que deverá dar o tom do ano, pontuado pelas eleições presidenciais no segundo semestre e por prováveis turbulências externas ao longo do percurso, obriga os investidores a serem mais ativos do que de costume em períodos mais mornos. As taxas, que começam o ano no estratosférico patamar de 19%, poderão compensar ainda por alguns meses a aplicação em fundos que acompanham a oscilação das taxas, os fundos DI. Mas, com o tempo passando e as eleições ficando cada vez mais próximas, a tendência é que as taxas entrem em ritmo de queda rápida. E aí os maiores ganhos ficam nos fundos tradicionais de renda fixa, que aplicam o dinheiro de seus cotistas em títulos com taxas prefixadas.
Escolher fundos de taxas prefixadas não é a atitude natural para investidores com pouco conhecimento do mercado. É uma aplicação de risco mais alto, apesar de carregar o tranqüilizador nome de fundo de renda fixa. Em 2001, por exemplo, aplicar neles teria sido uma má opção. Esse tipo de aplicação perde rentabilidade a cada vez que os juros sobem, e no ano passado, a trajetória da taxa básica foi ascendente. Em casos extremos, o valor da cota de alguns fundos chegou até a cair, o que significa rendimento negativo e dinheiro a menos na conta do cotista. O risco persiste este ano, mas a oportunidade de ganho é tentadora. No mercado financeiro, há unanimidade entre os analistas que os juros deverão sofrer um corte na faixa de 3 pontos percentuais. ?Se reduzir os juros já faz sentido economicamente, o efeito da aproximação das eleições amplifica isso. Taxa mais baixa aumenta a chance de vitória de um candidato favorável à continuidade da política econômica?, explica Cláudio Freitas, gestor de fundos de derivativos do Banco Prosper.
No caso de o mercado acertar na previsão, o efeito de um corte dos juros sobre os fundos prefixados é inverso ao que ocorreu no ano que acaba de passar: a rentabilidade dá um salto, já que os títulos em sua carteira guardam a taxa anterior, mais alta. Os mais arrojados podem tentar acertar o momento certo para migrar para esses fundos. ?O corte deve começar apenas no segundo trimestre, porque as eleições só vão ditar a agenda do mercado depois do carnaval?, arrisca Raffi Dokusian, gestor de recursos da Santos Asset Management. Até lá, o mercado vai permanecer como em 2001, de olho na crise que sacode a Argentina e no ritmo da recuperação da economia americana. E, a menos que a Argentina sofra uma ruptura tão traumática que contamine a economia brasileira, o mais provável é que nenhum dos dois países dê motivos para os juros serem alterados no Brasil.