26/06/2001 - 7:00
Silicose?. ?Silicose?. ?Velhice?. ?Silicose?. ?Assassinato?. ?Silicose?. ?Veneno de rato?. ?Silicose?. Com memória privilegiada, o coveiro José do Nascimento caminha entre os túmulos do cemitério municipal de Raposos, na região de Belo Horizonte, e conta como cada morador da cidade morreu. A silicose, uma doença pulmonar, lidera com folga o ranking. José conta que chegou a trabalhar na Mineração Morro Velho, a mais antiga do País na extração de ouro, e não voltaria para lá por nada. Nem que triplicassem o salário. ?Esse daí era da Morro Velho?, diz, apontando mais um túmulo. ?Silicose?, repete. ?Esse foi pedra. Caiu uma pedra em cima dele, na mina.? Para qualquer caso o coveiro tem a resposta pronta. ?Este aqui? Silicose.?
Doença ocupacional reconhecida pelo Ministério do Trabalho, a silicose chama a atenção pela progressiva falta de ar no paciente. O acúmulo da poeira de sílica no organismo leva à pneumonia e à morte. Em Minas Gerais fala-se mais de silicose do que dos males provocados pelo amianto, este pelo menos passível de proibição, como vem ocorrendo em vários municípios e Estados. A exemplo do caso do amianto, o valor das indenizações gera polêmica. Um acordo feito entre a empresa, o sindicato dos mineradores e o Ministério Público atingiu 580 pessoas na região de Raposos e Nova Lima. Outras centenas de ex-funcionários da Morro Velho, porém, não ficaram satisfeitos e brigam por valores maiores.
A empresa de 165 anos, antes inglesa e hoje incorporada pelo grupo sul-africano AngloGold ? o maior do mundo na mineração de ouro ?, alega que há quatro anos não há nenhum caso, por conta de melhorias nas condições de trabalho como a mecanização, ventilação e perfuração com água. Para os diretores, há uma ?campanha difamatória? contra o acordo trabalhista, que teria sido não uma admissão de culpa, mas ?uma demonstração de sensibilidade diante de um problema social?. As indenizações vão de R$ 7 mil a R$ 20 mil, dependendo do estado do doente. Metade do valor é paga em dinheiro, a outra em lotes. A maior parte dos que aceitaram o acordo tem recebido R$ 14 mil, segundo uma das líderes dos rebelados, Maria Auxiliadora Barbosa. Os R$ 7 mil em dinheiro, pagos em três vezes, são considerados muito pouco por quem preferiu brigar na Justiça. Para além do chavão ?nada paga uma vida?, os trabalhadores querem dinheiro para tratamento, hospitais e remédios. Em 2000, a AngloGold faturou US$ 200 milhões na América do Sul. Os mineiros querem parte do ouro.
Alguns não conseguem nem sair de casa. O aposentado Antônio Dias da Costa pouco ouve, ?por causa do barulho das explosões?. O salário mínimo que recebe do INSS mal paga os medicamentos. Foram 20 anos na Morro Velho. Em 1986, conta, já tinham detectado o mal, informado na linguagem popular: ?O senhor tem poeira.? Cinco anos depois, ainda tinha hospital que informava o contrário. Segundo Maria Auxiliadora, que perdeu um pai e um irmão por causa da doença, os efeitos da silicose entre os trabalhadores são minimizados por uma rede formada por médicos, advogados e até juízes. A empresa nega. Entre os advogados que defendiam os silicóticos nos últimos anos havia até um estelionatário.
A expectativa de vida dos mineiros, que aparentam ser 20 anos mais velhos, fica abaixo dos 50 anos. As condições de trabalho que geram o problema foram banidas da Inglaterra no século 19, mas seguiram no Terceiro Mundo. O ex-perfurador Teonílio de Carvalho conta que, quando falta o ar, agita-se tanto que chegou a quebrar um armário. Com febre, fadiga e aflição, recebe R$ 90,00 de pecúlio por acidente desde 1978. Pouco. ?Algumas vezes falta o remédio, porque não vou ficar sem alimentar a família.?
Dados dos Ministérios da Saúde e da Previdência Social mostram
que Minas Gerais lidera a incidência da doença no Brasil, também presente na indústria naval, no Rio, e de cerâmica, caso paulista.
A médica Ana Paula Carneiro, do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, faz perícias em mineiros para a Justiça e diz que o
número de casos em Minas oscila entre 4.500 e 7.500. Para o presidente da AngloGold na América do Sul, Roberto Carvalho
Silva, a silicose é ?uma doença profissional do passado?. Ele diz
que as indenizações foram além das obrigações trabalhistas. Se
a aposentadoria por silicose não supre as necessidades dos
doentes, raciocina, isso se deve a motivos alheios à empresa,
como a política previdenciária e a inflação.
Com ou sem a ?sensibilidade social?, o caso dos silicóticos, como
o do amianto, mostra a necessidade de prevenção de doenças
nas empresas. Nos Estados Unidos, as indenizações por câncer somam milhões de dólares. O Brasil ainda está longe disso. Em Raposos, tendo seu quarto como horizonte, o aposentado
Sebastião dos Santos, analfabeto, não possui noção de
valores ? ainda fala em ?cruzeiros? ? e exibe como único saldo
da mineração sua chapa pulmonar.