16/05/2011 - 2:26
Extenuado e visivelmente abatido, Dominique Strauss-Kahn se apresentou nesta segunda-feira a um tribunal de Nova York, no centro de Manhattan, rodeado de criminosos vestindo camisetas ou agasalhos de moletom, dois dias depois de ser detido sob acusação de cometer crime sexual.
Sob os olhares de cerca de 40 jornalistas, o diretor-gerente do FMI chegou no meio da manhã à sala de audiências do tribunal penal de Nova York. Ele se sentou no banco de madeira dos acusados, onde estavam outros suspeitos à espera da audiência.
O ex-ministro francês das Finanças estampava cansaço no rosto levemente bronzeado. Vestindo sobretudo azul e camisa clara, olhava sempre para a frente, para o chão ou para a juíza.
Atrás dele, depois das bandeiras americana e do estado de Nova York, lia-se a frase “In God we trust” (Confiamos em Deus).
Este homem, que chegou a ser o símbolo de poder à frente do FMI, ex-professor da respeitada escola de Sciences-Po e casado com uma estrela da televisão se igualou, naquele momento, aos criminosos comuns que se sentavam ao seu lado.
Antes de chegar a sua vez de falar, um homem de origem hispânica se apresentou para responder por “consumo ilícito de álcool em local público”. Em alguns segundos, seu caso foi resolvido.
Outros casos examinados tinham a ver com tráfico de drogas em pequena escala. A maioria dos suspeitos estava de camiseta, entre eles uma mulher, aparentando cansaço, que vestia um agasalho de moletom.
Strauss-Kahn saiu da sala sem motivo aparente durante uma hora e, ao voltar, escoltado por policiais, sentou-se no mesmo banco antes de se reunir com seus advogados em um pequeno locutório envidraçado, sob as luzes da sala de audiência que imitavam o estilo art-déco.
William Taylor, seu advogado de Washington, e Benjamin Brafman, famoso advogado nova-iorquino, conversavam com seu cliente ao pé do ouvido. As cabeças grisalhas dos três homens quase se tocavam.
Depois de uma breve suspensão da sessão, os fotógrafos voltaram à sala, lutando pela melhor foto do suspeito francês. Dominique Strauss-Kahn foi, em seguida, chamado à galeria do tribunal.
Ficou de pé, de frente para a juíza Melissa Jackson e junto de seu advogado. Os dois promotores também se levantaram, à sua direita, e suas palavras pareciam golpes.
O promotor Cyrus Vance evocou a narrativa “muito precisa” da suposta vítima, um vídeo em que Strauss-Kahn aparece saindo do hotel “a toda velocidade” e os riscos de que o detido fuja. Os promotores se dizem contrários a conceder a liberdade sob fiança.
Brafman, por sua vez, lutou para que fosse concedida a liberdade “ao homem mais identificável do planeta” em troca de uma fiança de um milhão de dólares.
O advogado insistiu no fato de que seu cliente chamou o serviço de segurança do hotel para dizer que havia esquecido seu telefone celular ao sair do quarto. Isto seria, segundo ele, a prova de que seu cliente não estava fugindo.
“Meu único temor é que fuja”, respondeu a juíza. Os promotores evocaram, então, o caso de Roman Polanski, cineasta franco-polonês que fugiu dos Estados Unidos, onde era acusado de estupro. A juíza interrompeu estes argumentos, duvidando da validade desta comparação.
Em último recurso, para evitar a detenção, a defesa de Strauss-Kahn propôs o uso de uma pulseira eletrônica. Mas isto não convenceu juíza.
O suspeito permanecerá sob custódia, à espera do pronunciamento da Câmara de Acusações, que deverá decidir até sexta-feira se o caso resultará em um processo.
Strauss-Kahn saiu da sala pela porta dos fundos, sem seus advogados.
Sob uma chuva, em frente ao prédio frio e monumental do Palácio de Justiça, Brafman deu uma coletiva diante de uma centena de jornalistas: “Evidentemente, estamos decepcionados com a decisão do tribunal”, disse. Mas o “expediente é defensável”, concluiu.
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