O eterno debate sobre segurança na Fórmula 1 ganhou novos contornos com o grave acidente sofrido pelo francês Jules Bianchi após perder o controle do seu carro na pista molhada de Suzuka durante o Grande Prêmio do Japão, mantido apesar da passagem do tufão Phanfone.

-Quem é responsável pela realização da prova?

A autoridade esportiva e técnica da F1 é a Federação Internacional de Automobilismo(FIA), com sede em Paris e presidida por Jean Todt, ex-diretor da escuderia Ferrari e pai de Nicolas Todt, empresário de Bianchi. A FIA define os regulamentos, verifica a conformidade dos carros, valida o calendário e pune responsáveis por incidentes ou pilotos que colocam em risco outros com seu comportamento na pista. A entidade também é responsável pela segurança nos circuitos, a coordenação médica e a organização dos resgates. A Formula One Management (FOM), com sede em Londres e dirigida por Bernie Ecclestone, cuida apenas dos aspectos comerciais da modalidade. A empresa negocia os contratos com os organizadores das corridas, os canais de televisão e os patrocinadores. Também produz todas as imagens oficiais da F1 e controla de perto tudo que é divulgado.

-Por que a FOM não mostrou imagens do acidente?

Este é o procedimento habitual em caso de acidente grave, para preservar os familiares e evitar que as imagens sejam usadas por pessoas mal intencionadas na internet. A FOM detém os direitos comerciais da F1 e produz as imagens oficiais transmitidas pelos canais que compram os direitos. A empresa escolhe todas as imagens disponibilizadas e controla tudo que é exibido pelos canais. Quando o piloto acaba se recuperando, as imagens costumam ser divulgadas dias depois.

-Era necessário modificar o horário da corrida?

A largada ocorreu às 15h00 locais, horário escolhido para que a corrida seja realizada no momento em que a maioria dos telespectadores europeus estão acordando. A FIA pediu duas vezes à empresa que organiza o evento, a Mobilityland (filial da Honda), para adiantar o horário da largada para 11h00 ou 13h00, devido à previsão de passagem do tufão Phanfone no meio da tarde, mas não foi atendida. A Mobilityland alegou que o horário não pôde ser modificado para não atrapalhar a chegada do público até o autódromo, mas os detentores de ingressos poderiam ter sido avisados na véspera. A vontade de ter o melhor fuso horário possível em relação à Europa, mercado de maior alcance para a F1, é um motivo mais plausível. O certo é que choveu bem menos na parte da manhã, conforme havia previsto a Ubimet, empresa que fornece informações de meteorologia para a modalidade.

-O horário de 15h00 era o pior possível?

Naquele horário, a pista estava molhada, obrigando os pilotos a largar com pneus de chuva, em ritmo lento, atrás do carro segurança (safety car). Outro agravante foi o fato da noite cair às 17h22, diminuindo a visibilidade. As chances de completar as 53 voltas num tempo aceitável para os padrões da modalidade eram mínimas. A chuva era bem menos intensa na parte da manhã, mas não isto foi levado em conta.

-Por que a corrida não foi suspensa mais cedo?

Com 40 voltas completadas, 75% da distância total prevista, o líder Lewis Hamilton, da Mercedes, já liderava a prova com folga na frente do companheiro de equipe Nico Rosberg, que ultrapassou com facilidade na 29ª volta. Parar a corrida naquele momento não teria mudado muita coisa para o resultado final, mas teria limitado os riscos para os pilotos. A bandeira vermelha, que põe fim à prova, veio apenas na 46ª volta. “Já fazia cinco voltas que gritava no rádio para pedir para parar tudo”, reclamou o brasileiro Felipe Massa, da Williams, que não foi ouvido pelos comissários de corrida.

-Porque o guindaste em que Bianchi bateu estava naquele local?

O alvo das principais críticas foi o guindaste presente na pista na altura da curva 7, na hora do acidente. O equipamento tinha sido chamado para retirar o carro do alemão Adrian Sutil da Sauber, e deveria ter passado apenas alguns minutos no local, antes de voltar para atrás da grade de segurança. A intervenção deste guindaste poderia eventualmente ter levado os comissários da corrida a pedir o uso do carro de segurança, mas este procedimento não é automático na F1.

-Porque o carro de segurança não entrou depois do acidente de Sutil, antes da intervenção do guindaste?

Diante do contexto geral da corrida (volta da chuva, visibilidade baixa…), a opção pelo carro de segurança poderia ter sido levada em conta. Foi preciso esperar o segundo acidente seguido no mesmo local (o de Bianchi) para que o safety car regulasse o ritmo dos carros, até que a corrida fosse totalmente interrompida.

-As bandeiras amarelas avisando do acidente de Sutil eram visíveis?

Estas bandeiras são agitadas por comissários ao redor do circuito em casos de perigo. Além disso, uma luz amarela pisca no cockpit dos pilotos. Quando Sutil saiu da pista, é possível que Bianchi não o tenha visto, já que estava na frente dele na corrida. Quando ele abordou a curva 7 com pneus intermediários degastados, numa pista molhada, é possível que não tenha enxergado as bandeiras, já que não chegou a diminuir a velocidade de forma significativa. Tampouco se sabe se a luz no cockpit chegou a ser acesa.