Ao receber o Prêmio Nobel da Paz no início de seu primeiro mandato, o presidente americano Barack Obama reagiu meio constrangido a esta recompensa polêmica e surpreendeu ao declarar que estava apenas “no início do meu trabalho no cenário mundial”.

Quase seis anos depois, ele obtém, através do acordo alcançado com o Irã sobre seu programa nuclear, uma verdadeira vitória diplomática que distancia a perspectiva de uma ação militar com consequências imprevisíveis em uma região profundamente instável.

O acordo surpreendeu seus críticos nos Estados Unidos e no exterior, de Israel às monarquias do Golfo sunitas. Mas mesmo que o acordo passe nas próximas semanas pela delicada fase de avaliação do Congresso americano, levará vários anos – muito tempo depois de sua saída da Casa Branca – para medir o impacto real desta conquista.

De todas as formas, o 44º presidente americano pode reivindicar a expressão concreta de um princípio fundamental de sua política externa: dar uma chance para o diálogo, mesmo aos inimigos da América.

Ele explicou, em 2009, ao receber o Nobel em Oslo, que devemos incansavelmente tentar encontrar um equilíbrio “entre o isolamento e a cooperação, a pressão e o encorajamento”, insistindo em sua crença de que “sanções sem a mão estendida e condenações sem discussões” são fadadas ao fracasso.

Nesta terça-feira ele citou um de seus antecessores, John F. Kennedy – “Não devemos negociar sob a influência do medo, mas não devemos ter medo de negociar” – para ressaltar o poder da diplomacia, ferramenta valiosa que pode “tornar o mundo mais seguro.”

Onde seu predecessor, George W. Bush, criou uma barreira aos países do seu famoso “eixo do mal”, Obama tentou a abertura, ou mesmo a superação – em setembro de 2013 – de algo impensável: uma conversa por telefone com seu colega iraniano Hassan Rohani.

Trinta e cinco anos depois da ruptura das relações diplomáticas na sequência da Revolução Islâmica e da crise dos reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã, os dois países – bem como outros membros do P5+1 – chegaram a um acordo sobre um documento que visa impedir Teerã de adquirir armas nucleares em troca de um levantamento das sanções que estrangulam a economia iraniana.

“Durante décadas, a nossa política tem sido a de conter o Irã, de não cooperar ou trabalhar em qualquer assunto. Esta é uma mudança fundamental”, ressalta Aaron David Miller, do Centro Wilson. “A favor ou contra este acordo, ele é significativo”.

Para Trita Parsi, do centro de reflexão National Iranian American Council, o texto aprovado em Viena é, inquestionavelmente a peça central da política externa de Obama, que deixará a Casa Branca em 18 meses.

Se o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba, anunciada há poucos dias, é “provavelmente a mais falada por muitos americanos”, este acordo com a República Islâmica terá “consequências geopolíticas infinitamente mais importantes”, diz ele.

No curto prazo, todos os olhos estarão voltados ao Congresso americano. Apesar de não ser chamado a ratificar o texto (que não é um tratado), ele tem o poder de bloqueá-lo.

Se superar este obstáculo, que lugar ocupará este acordo altamente técnico, ferozmente negociado por quase dois anos, nos livros de história?

Alguns apontam para a aproximação entre os Estados Unidos e a China na década de 1970 sob a liderança de Richard Nixon, que realizou uma visita histórica a Pequim em fevereiro de 1972.

Mas o paralelo é – de muitas maneiras – imperfeito. “Nós ainda estamos distantes da normalização entre os Estados Unidos e o Irã”, diz Aaron David Miller, que recorda as muitas fontes de tensão na região: o apoio de Teerã ao regime de Assad na Síria, ao Hezbollah no Líbano, ao Hamas na Faixa de Gaza ou aos huthis no Iêmen.

A questão é saber se este documento pode marcar uma mudança mais profunda, o início de um amplo diálogo entre Washington e Teerã. Barack Obama tem esta esperança: “Este acordo nos dá uma chance de ir em uma nova direção, devemos aproveitá-la”, lançou nesta terça-feira a partir da Casa Branca.

Para Suzanne Maloney, do Brookings Institution, esta “verdadeira vitória”, resultado da implantação de um “esforço diplomático” não convencional, pode ser comparado aos acordos alcançados durante a Guerra Fria, por Ronald Reagan, em particular, em matéria de desarmamento com a União Soviética.

“Foram acordos estratégicos que permitiram gerir um dos aspectos mais perigosos de uma relação entre adversários”, diz ela.

Consciente de que a sua abordagem não tem apoio unânime, Obama reuniu todo o seu peso – e seu lugar na história – na balança.

“Meu nome será escrito sobre este acordo”, explicou ele, há algumas semanas. “Ninguém tem mais interesse do que eu em certificar de que o Irã cumprirá as suas promessas.”