O que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, planejava sobre o tratado recém-assinado com o Mercosul vai acontecer. O órgão europeu anunciou há poucos dias que o acordo comercial entre os dois blocos será aplicado provisoriamente a partir de 1º de maio. A decisão ocorre mesmo sem resolução do imbróglio dentro da Europa (os países do Mercosul ratificaram o tratado). Vale lembrar que o Parlamento Europeu solicitou, em janeiro, pouco depois da assinatura do tratado, que a Justiça verificasse a legalidade do acordo.

O tratado de livre comércio envolve 27 países europeus e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, estabelecendo um mercado de 700 milhões de consumidores e Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 22 trilhões.

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A opção da Comissão pela aplicação imediata e provisória da medida enfrenta forte resistência do setor agrícola da França, embora conte com o respaldo direto dos governos da Alemanha e da Espanha. Desde que parlamentares da UE votaram a favor de contestar o acordo de livre comércio com o Mercosul no tribunal superior do bloco, líderes de alguns países vem deixando clara a insatisfação com o movimento. Um deles, o primeiro a se manifestar de forma contundente, foi o chanceler alemão Friedrich Merz. Logo após o movimento de contestação, em 21 de janeiro, Merz disse que o acordo precisava “entrar em vigor provisoriamente” e que “levá-lo ao tribunal superior” do bloco europeu desconsideraria a realidade geopolítica atual.

Em meio à postura truculenta e errática do presidente norte-americano Donald Trump para alcançar seus objetivos, muitos líderes europeus não querem ficar à mercê dos Estados Unidos ou da China – é, portanto, o momento de redesenhar parcerias estratégicas comerciais. Tanto é que a Itália, de Giorgia Meloni, que se posicionou contra o acordo em dezembro, mudou de ideia e a postura contribuiu para a saída da assinatura oficial do tratado em 17 de janeiro. Até dezembro de 2025, Meloni descrevia a assinatura como prematura, argumentando que o texto não protegia suficientemente os agricultores europeus.

O acordo econômico assinado entre o Mercosul e os europeus redesenha as fronteiras competitivas de um mercado gigantesco. A economia da maior área de livre comércio do mundo só perde para a norte-americana, com um PIB próximo a US$ 29 trilhões, e supera a da China – de US$ 19 trilhões. Os números entregam a dimensão estratégica. Firmado como está, válidas as condições do documento assinado em janeiro, os setores beneficiados no Brasil, liderados pelo agronegócio exportador e por indústrias de nicho como calçados e minerais, terão acesso a um dos mercados mais sofisticados do globo. Por outro lado, setores sensíveis da indústria e da agropecuária subsidiada sofrerão uma pressão competitiva sem precedentes. Foi desenhado um movimento gradual de redução tarifária, dependendo do segmento, em até quinze anos.

O resultado final para a economia brasileira dependerá menos do texto do acordo e mais da capacidade do país em utilizar o período de transição tarifária para implementar reformas estruturais, reduzir o custo de produção e garantir que a sustentabilidade seja tratada como um diferencial competitivo e não apenas como um ônus regulatório. A área de livre comércio que o Brasil ajuda a formar com os outros países fundadores do Mercosul e a União Europeia é uma espécie de mapa para o crescimento, mas o sucesso disso exigirá a modernização produtiva que o país adiou por décadas.

Acordo com o Canadá pode sair até o final do ano 

O ministro do Comércio Internacional do Canadá afirmou na sexta-feira, 27, que espera concluir um acordo de livre comércio com o Mercosul até  dezembro.

O Canadá intensificou os esforços para diversificar o comércio em meio à incerteza relacionada às tarifas impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.

O ministro do Comércio Internacional do Canadá, Maninder Sidhu, afirmou ter realizado reuniões bilaterais com a Argentina e o Paraguai, e que se reuniu com o Brasil e o Uruguai nos bastidores da reunião da OMC em Yaoundé.

A Reuters informou que uma autoridade do governo argentino disse que o acordo deveria ser assinado em setembro ou outubro, aproximadamente um ano após a retomada formal das negociações.

Outro diplomata, baseado no Brasil, também afirmou à Reuters que as negociações estavam avançando em ritmo recorde e extremamente bem, confirmando que os países provavelmente chegariam a um acordo ainda este ano.