22/06/2010 - 22:45
A decisão da Petrobras de adiar a capitalização da empresa de julho para setembro ? anunciada na terça-feira, 22 ? traz preocupação ao mercado, já que a operação deve acontecer no período de férias do Hemisfério Norte e também mais próxima das eleições no Brasil.
Para analistas, embora a oferta continue sendo vista como atrativa, o adiamento deixa uma ideia de desorganização na condução do programa. ?Na avaliação geral da operação, nada mudou. Mas a protelação deve gerar ansiedade e é provável que a cotação do papel ande de lado até setembro?, diz Osmar Camilo, analista da Socopa Corretora Paulista. Para ele, setembro seria a data limite para a operação, pois deixá-la para o ano que vem poderia ter conseqüências negativas sobre o plano de investimento da empresa.
A capitalização da estatal pode envolver até R$ 100 bilhões, volume previsto justamente para ajudar a empresa a alcançar os US$ 224 bilhões em investimentos previstos para o período entre 2010 e 2014 – anunciados no dia 21.
Mas por temer contestações legais, o governo anunciou que vai esperar pelo laudo de avaliação das reservas do pré-sal pertencentes à União – a ser feito pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) – antes de realizar a oferta. Essas reservas serão cedidas à Petrobras e usadas na capitalização da companhia.
Mesmo em meio a incertezas, perto da operação da Petrobras, qualquer outro lançamento de ações parece ser coisa de criança. Embora o governo já tenha admitido que a intenção é ficar com tudo o que não seja absorvido pelo mercado, boa parte dos analistas avalia que a demanda pela empresa se sustentará.
Camilo diz que é pouco provável que o adiamento interfira na demanda, já que o investidor, especialmente o grande investidor estrangeiro, tem uma estratégia de aplicação pré-definida. Sobre o possível impacto negativo das turbulências internacionais sobre esse interesse, o analista vai na mesma direção. ?Aquele estrangeiro que já tem aplicação no Brasil pode readequar sua carteira para acomodar Petrobras, por exemplo?.
Henrique Kleine, analista da Corretora Magliano, avalia que a operação é vantajosa para acionistas ? que, entrando na operação, evitam a diluição de sua participação na empresa ? e também para não acionistas, já que a ação está barata. Kleine ressalta que o valor patrimonial (aquele que consta no balanço) da Petrobras hoje é idêntico ao seu valor de mercado. Isso, diz ele, significa que a empresa tem uma enorme potencial de crescimento, já que, historicamente, o valor de mercado da estatal é pelo menos duas vezes o seu valor contábil. ?Hoje a Petrobras vale no mercado exatamente o que ela valia no início de 2007, ou seja, antes do pré-sal. A oportunidade de compra é boa?, afirma.
Para Camilo, a operação deve ser considerada pelo investidor que tenha interesse em adquirir ações da Petrobras, uma vez que os papéis estão bastante subavaliados. ?Há também espaço para se conseguir os papéis ofertados por preço inferior ao mercado, mas o investidor tem que ter claro que está sujeito aos rateios da oferta, nada garantindo que ele vá levar alguma coisa?, afirma. A projeção da Socopa para os papéis preferenciais (PN) da estatal é de R$ 46,00 até o fim de 2010, o que representa uma alta de cerca de 60% sobre a cotação atual. Para Kleine, o potencial é um pouco maior, de 65%.
Para a consultoria Lopes Filho, as ações da Petrobras apresentam um grau considerável de risco justamente porque não há um valor estimado para o barril nos novos poços de petróleo. A Lopes Filho acredita que o preço do papel sairá em valor muito parecido aos que a Petrobras já oferece, sendo indicado para investidores de longo prazo, já que a perspectivas nesse sentido são boas, ao contrário do setor petrolífero em geral.
Quanto aos riscos da operação, Camilo lembra que são os riscos clássicos da renda variável. ?Apesar de ser uma empresa bastante sólida e de grande porte, há riscos operacionais, como o que aconteceu com a British Petroleum?, diz, em referência ao episódio da explosão da plataforma de petróleo da BP e do grande vazamento de óleo no Golfo do México.