sorriso fácil e os modos afáveis desse homem ainda desconhecido pelos brasileiros podem enganar os desavisados, mas o tom de voz do argentino Jorge Márquez-Ruarte não deixa espaço para dúvida ? a missão do Fundo Monetário Internacional que chegou ao País na semana passada, a primeira a fiscalizar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, não veio para brincar. ?Somos 100% dedicação. Nenhum número nos escapará?, garantiu Márquez-Ruarte à DINHEIRO, na noite de terça-feira 18. Chefe de uma missão de nove técnicos, ele enfrentou constrangimentos em Brasília. Após décadas gritando ?Fora FMI?, o PT foi obrigado a receber o Grande Satã na sala ? e resolveu compensar a concessão criando limites para os representantes da instituição. O Palácio do Planalto orientou os ministros a não se abrirem demais com o pessoal do Fundo. A ordem é centralizar os contatos na equipe econômica, para evitar declarações contraditórias. Por outro lado, Marquéz-Ruarte trouxe na mala uma lista de perguntas e quer escarafunchar a viabilidade das propostas de cada ministério. Resultado: não conseguiu marcar as audiências que pediu e enfrentou uma recepção fria, muito diferente daquela oferecida às missões anteriores.

No topo da lista do FMI, está a dúvida de como o Brasil conseguirá um superávit primário equivalente a 4,25% do Produto Interno Bruto em 2003. ?A dúvida é se a reforma previdenciária sai do papel?, revela uma autoridade do governo envolvida nas negociações. Na quarta-feira 19, o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini, passou por uma saia-justa. Os economistas do Fundo pediram uma audiência e Berzoini, por meio de sua assessoria, mandou dizer que já tinha compromisso. Mais: avisou que o interlocutor do Fundo é o ministro da Fazenda. ?É lógico que o PT não quer conversar com o FMI porque eles não têm um projeto de reforma previdenciária claramente definido?, deduz o economista Carlos Langoni, da Fundação Getúlio Vargas. Outro aspecto considerado importante pelo Fundo é a execução de investimentos dos ministérios após o corte de R$ 14,1 bilhões. Márquez-Ruarte quer saber, por exemplo, se pode ocorrer novo apagão, mas a ministra Dilma Roussef, das Minas e Energia, também não o atendeu. O fiscal do FMI foi tranqüilizado pelo secretário-executivo do ministério, Maurício Tolmasquim. No encontro, o inspetor perguntou até que ponto o iminente aumento das tarifas de energia engordará a taxa de inflação. Ouviu uma resposta polida, porém evasiva: ?Metas inflacionárias são da alçada do Banco Central?. Com o secretário do Tesouro, a conversa girou em torno do desequilíbrio entre dívida pública e PIB, calcanhar-de-Aquiles do governo. Joaquim Levy foi enfático. ?Não haverá rompimento de contratos com Estados ou municípios?, garantiu.

A missão técnica do FMI ainda terá vários encontros pela frente. Os mais importantes são com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e do Planejamento, Guido Mantega. Com Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, já falou. ?Acho que o governo vem tomando medidas apropriadas?, avaliou Márquez-Ruarte. O encontro mais afável ocorreu com a ministra Benedita da Silva, da Promoção Social. Pela primeira vez na história desse tipo de missão, o FMI preocupou-se em visitar a área social do governo. Recebidos com cafezinho e água, escutaram da ministra o que todo petista de governo anda dizendo. ?Pedi que levassem em conta o tamanho do esforço fiscal que estamos fazendo antes de tirar qualquer conclusão sobre nossa capacidade de administrar?, relatou a ministra à DINHEIRO. Os economistas do FMI entendem português, embora nem todos sejam fluentes na língua. Ssão loucos por churrasco e feijoada. Para relaxar, planejam conhecer o Clube do Choro, tradicional reduto sambista na capital. A tropa de choque trabalha há pouco tempo com Márquez-Ruarte, um dos integrantes do ?Exército Asiático?, como foi apelidada a equipe do Fundo que juntou os cacos da Coréia do Sul e da Rússia após as crises de 1997 e 1998. O argentino durão é o único que ainda não caiu de encantos pela caipirinha. ?Nunca tomo nada com algo além de 40% etílico?, garante. Dêem um tempinho a ele.