27/02/2002 - 7:00
A americana AES, empresa que mais investiu na privatização do setor elétrico no Brasil, está virando pó. É mais uma vítima da síndrome da Enron. Suas ações já caíram 94% em relação ao pico de valorização. Agências de classificação de risco, como a Moody’s e a Standard & Poor’s, colocaram os títulos da empresa em observação para um provável rebaixamento ao nível de junk bonds, ou seja, de papéis podres. Até aí nada demais, não fosse o fato de a AES estar em empresas gigantes, como a Eletropaulo e a Cemig, e ainda geradoras como a AES Tietê e a AES Uruguaiana. Com dívidas de US$ 22,3 bilhões, a empresa foi forçada, na terça-feira 19, a anunciar um programa de venda de ativos na América Latina para levantar recursos e pagar parte dos seus compromissos. O mercado não ficou satisfeito. No mesmo dia, as ações caíram 32%. Oficialmente, serão vendidas apenas as subsidiárias da AES na Argentina e na Venezuela. Mas, no mercado, as especulações que colocam em dúvida o futuro da AES são cada vez mais recorrentes. ?A crise da controladora pode comprometer até mesmo as empresas no Brasil?, diz Luís Felipe Cruz, analista que acompanha as companhias de energia para o Unibanco. O que complica ainda mais a situação é o fato de os investimentos no Brasil não estarem com bom desempenho. O caso mais grave é o da Eletropaulo, que distribui energia para 14 milhões de clientes em São Paulo e tem uma dívida de quase R$ 7 bilhões. Isso representa sete vezes a geração de caixa da empresa, algo muito acima da média do setor. ?A Eletropaulo pode ter dificuldades para renovar suas dívidas no mercado financeiro?, diz Cruz.
A crise da AES também disparou o sinal de alerta na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e entre os especialistas do setor. A empresa tinha investimentos programados para construir duas novas usinas térmicas, uma em São Paulo e outra no Rio Grande do Sul. Os projetos já foram riscados pela Aneel. ?A tendência de redução dos investimentos é clara?, diz o consultor Fábio Dias, da empresa Energética-Tech. Caso a AES venha a vender seus ativos no Brasil, o comprador natural para as empresas no Sul do País seria a belga Tractbel, que já é dona da Gerasul. A Cemig, a que apresenta os melhores resultados, teve o controle retomado pelo governo mineiro. Para jogar ainda mais lenha na fogueira, a contabilidade da AES também suscita dúvidas nos EUA. Analistas apontaram uma discrepância de quase US$ 350 milhões nos resultados que a empresa alega ter gerado no País, considerando os balanços divulgados no Brasil e nos Estados Unidos.