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O Fielder Toyota preto estancou em frente à guarita da fábrica da Bombril, na Via Anchieta, em São Paulo, às 10 horas da manhã da terça-feira 18. O vidro escuro baixou e, de dentro, um senhor de 59 anos, cabelos prateados, dirigiu-se ao vigia: ?Meu nome é Ronaldo Sampaio Ferreira e sou o dono desta empresa.? A seu lado, encontrava-se sua mulher, Alice. No banco de trás, os três filhos e sua mãe. Um outro veículo trazia três amigos e conselheiros de Ferreira. A cancela subiu e o pequeno comboio seguiu mais alguns metros antes de estacionar. Ferreira deixou o automóvel e olhou o imenso galpão. Ele esperou exatos 20 anos por aquele momento, 20 anos para pisar novamente na companhia de onde foi ?posto para fora pela traição de meus irmãos?, como ele mesmo diz. Ao longo desse período, Ferreira esteve mergulhado em sucessivas batalhas judiciais, primeiro com seus irmãos e depois com o empresário italiano Sergio Cragnotti. Venceu todas e, por fim, há pouco mais de dez dias, recuperou na Justiça o controle acionário da companhia fundada por seu pai, Roberto, em 1948.

Uma faixa confeccionada com capricho dava as boas-vindas à comitiva. Sob ela um pequeno grupo de diretores a aguardava. Junto, estava Carlo de Pietro, o mais antigo funcionário da casa, com 35 anos de trabalho na Bombril. ?Você sabia que os empregados fizeram novena pela minha volta??, pergunta Ferreira. ?Eles eram filhos bastardos, não havia liderança. Agora, esta empresa tem dono.? Eis Ronaldo Sampaio Ferreira em seu melhor estilo: um sujeito passional, homem de pouco riso e muito siso. Fala aos borbotões, nem sempre numa seqüência cronológica dos fatos. Dono de discursos inflamados, recheados de metáforas e adjetivos superlativos, Ferreira caminha a passos largos, seguido pelo séquito de executivos. ?O escritório está feio demais. Vou mexer nisso tudo?, anunciou, apontando para as divisórias de fórmica. Vou retomar essa prática.? Funcionários se aproximavam e o cumprimentavam com reverência. O diretor industrial Airton Zoia chegou perto e já recebeu uma missão. ?Prepare as máquinas que vamos lançar mais de 50 produtos?, disse. ?Aliás, qual o caminho para a fábrica??, perguntou. Entre as linhas de produção da lã de aço e dos detergentes Limpol, uma das marcas da companhia, ele encontra e abraça antigos funcionários.

Não há emoção em sua voz. ?Ao contrário do que eu pensava, não fiquei emocionado?, confessa. ?Na verdade, a chegada à fábrica me fez voltar ao passado de brigas. Foram 20 anos e eu não esqueço.? Recordações? ?Não. Não consigo ver o que essa empresa era. O que estou vendo é o que a empresa deixou de ser nesse período?, afirma. A Bombril, diz ele, deveria faturar R$ 3 bilhões, o dobro do atual. A participação de mercado na lã de aço poderia continuar nos históricos 90% e não ter caído para 70%. Marcas como Orniex, ODD e Quantum não teriam sido vendidas. ?Seríamos maiores do que a Unilever?, compara. Nada o deixa tão inflamado como a situação em que sua empresa se encontra. ?Encontrei a Bombril em frangalhos, depauperada, dilapidada?, irrita-se. ?Já soube de tantas barbaridades que até Deus duvida. Só de advogados, eles gastaram R$ 15 milhões, inclusive para me processar?, diz ele. Ferreira também se impressiona com um contrato de patrocínio de R$ 30 milhões, cuja maior parcela foi paga antecipadamente. Outro ponto de ?preocupação?, segundo ele, foi o fechamento da fábrica de lã de aço, em Sete Lagoas (MG). Tempos depois, a mesma unidade foi reaberta para a fabricação de detergente líquido. ?Não entendi a lógica que norteou essa decisão?, afirma José Roberto D?Aprile, recém-empossado presidente da empresa. Os novos manda-chuvas encontraram ainda uma equipe de vendas ?destroçada?, nas palavras de Ferreira. ?Ela não agride o mercado?, diz ele. ?Mas vamos levar a Bombril de volta aos tempos gloriosos.?

A glória se esvaiu ao longo dos últimos 20 anos. Primeiro, foi a briga entre os três filhos do fundador Roberto pelo controle da empresa. No meio da disputa, surgiu o empresário italiano Sergio Cragnotti e levou a parte dos irmãos de Ronaldo. Por um curto espaço de tempo, tornou-se sócio de Ronaldo até que arrematou também sua participação. Mas não pagou. A garantia eram as próprias ações da Bombril. Daí surgiu uma disputa entre os dois que foi parar nos tribunais. Nos últimos quatro anos, a companhia ficou sob administração judicial. ?Essa intervenção se estendeu mais do que devia?, afirma Ferreira. No início de junho, ele recebeu o controle da companhia de volta.

Tão logo soube da decisão da Justiça, Ferreira definia uma nova companhia. ?Tive 20 anos para pensar no que faria?, ironiza. Na cúpula, só o diretor financeiro, Carlos Roberto Dontal, sobreviveu. E foi para ele a primeira ordem do novo dono. Dontal e D?Aprile foram imediatamente despachados para uma maratona de visitas a bancos, com o objetivo de restabelecer as linhas de financiamento. A Bombril rolava dívidas de R$ 70 milhões em empresas de factoring, descontando duplicatas com taxas de 4%. Com os bancos, esse índice cairá para menos da metade. Além disso, as instituições abriram negociações para alongar o perfil desse endividamento e estendê-lo para até R$ 120 milhões. A dívida tributária, de R$ 320 milhões, é paga com ajuda do Refis ? algo como R$ 1,5 milhão por mês. ?Há dez dias, a Bombril era um elefante na UTI e já haviam dado a extrema-unção. Agora, ele já está no quarto em convalescença?, compara Ferreira.

D?Aprile e sua equipe receberam outra missão. Em uma apresentação sobre os números da companhia, estabeleceram uma meta de faturamento em 2006 de R$ 850 milhões a R$ 900 milhões. ?Pode aumentar para R$ 1 bilhão?, sentenciou Ferreira. O empresário prepara ?um agressivo plano de novos produtos.? Toda a linha será reavaliada. Novas formulações de produtos já estabelecidos chegarão ao mercado. O portfólio de químicos (detergentes, limpadores, etc) passará por um processo de modernização. A companhia voltará à fabricação de sabão em pó. ?Com o Quantum chegamos a 12% de participação?, diz D?Aprile. Até o final de 2007, serão dez lançamentos.

Mas a primeira aposta de Ferreira será na recuperação da lã de aço, fonte abundante de geração de caixa, devido à sua rentabilidade. Sua meta é voltar aos 90% de participação. Para isso, contará com a ajuda do ator Carlos Moreno, que desde 1978 faz sucesso como o ?garoto da Bombril?. ?Foi na minha gestão que o personagem foi criado. Na época, dentro da empresa, fui seu único defensor?, diz Ferreira. ?Ninguém entende mais de palha de aço do que eu no Brasil.? Para muitos analistas, assim que a empresa readquirir valor, Ferreira a venderá. ?Eu não sou corretor de empresas, e não ofereço a Bombril para ninguém?, afirma. ?Mas também não sou burro. Se oferecerem um preço impossível de recusar… Esse símbolo oval é uma mina de ouro, uma estrela que vale uma fortuna.? Eis Ronaldo Sampaio Ferreira, o filho que voltou à casa, em sua melhor forma.