21/10/2015 - 16:10
Como ajudar os países mais vulneráveis a se adaptar ao impacto do aquecimento global é um dos temas predominantes das negociações em Bonn para um acordo histórico de combate às mudanças climáticas.
Entre mitigar e adaptar-se aos efeitos do aquecimento global, países como a Guatemala são claros.
“Sempre vimos que adaptação é mais importante para nós. Vemos uma desproporção total entre o que contribuímos para o problema e o que nós recebemos por causa do problema”, disse à AFP Edwin Castellanos, negociador-chefe da Guatemala nas negociações em Bonn, que acabam na próxima sexta-feira.
O rascunho do ambicioso acordo de Bonn deve ser aprovado definitivamente dentro de seis semanas, durante a Conferência do Clima de Paris (COP21).
Mas os países desenvolvidos só muito recentemente começaram a aceitar a ideia de que a mitigação e a adaptação, dois capítulos-chave no texto, devem ter uma importância igual, de 50%.
“A ‘adaptação’ está em crise, a conferência de Paris deve dar uma nova orientação” a essa questão, considera Seyni Nafo, porta-voz do grupo África (54 estados).
Os países em desenvolvimento (G77, 134 nações) se mobilizaram na segunda-feira, logo no início das negociações finais em Bonn, e novamente conseguiram que o texto aumentasse para incluir suas preocupações.
“Há uma grande diferença” entre necessidades e meios, alerta Alix Mazounie, da rede de ação para o clima (CAN), que reúne 900 organizações não-governamentais.
Para os países desenvolvidos, a adaptação não pode ser uma desculpa para não se comprometer a reduzir a emissão de gases de efeito estufa.
São os países emergentes, com China na liderança mundial, os principais contaminadores em volume.
A discussão inclinou-se para o reconhecimento de que nem todos os países emitem a mesma coisa, e que os mais vulneráveis só têm uma opção urgente – preparar-se para as mudanças que já estão acontecendo.
“Mas as necessidades também aumentaram” desde o início das publicações, em 1990, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). É o que explica o negociador das Maldivas e representante dos Estados Insulares, Amjad Abdula.
“A adaptação é se organizar para evitar tudo aquilo que puder ser evitado”, resume Harjeet Singh, da Action Aid: diques em Bangladesh, sistemas de previsão de ciclones na América Central, seleção de sementes resistentes à seca.
“Preparamos planos de adaptação a curto prazo, mas quais serão os impactos a longo prazo?”, questiona Giza Gaspar-Martins, negociador angolano e presidente do grupo de países menos avançados (48 países).
Em 2009, na COP de Copenhague, os países ricos prometeram aumentar suas ajudas, até um montante considerável: 100 bilhões de dólares anuais a partir de 2020.
Mas a maneira de apresentar este enorme montante de ajuda está sujeita a interpretações: segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Norte já ajuda o Sul anualmente com um valor de 62 bilhões de dólares, incluindo empréstimos de bancos privados.
Agora, nas cansativas discussões de Bonn, alguns países desenvolvidos lembram que têm congressos e déficits a respeitar.
“Parte do que o G77 pede é previsibilidade, saber que todo o resto pode vir anual ou bianualmente”, explicou à AFP Giovanna Valverde, negociadora-chefe da Costa Rica, que participa das discussões sobre finanças.
A Costa Rica faz parte do grupo de sete países latino-americanos conhecidos como Ailac, que tenta erguer pontes sobre as posições mais distantes.
“Dentro da Ailac há três que contribuíram financeiramente com o Fundo Verde (criado pelos membros da COP) que, com toda razão, dizem ‘porque hoje conseguimos destinar fundos, não temos certeza de que dentro de cinco anos conseguiremos fazer o mesmo'”, explicou.
Segundo a OCDE, apenas 16% da ajuda para o clima do Norte ao Sul foi parar, em 2014, em medidas de adaptação.
A ajuda financeira, em especial após 2020, quando deve entrar em vigor o acordo de Paris, pode ser “a discussão crucial deste acordo”, segundo Valverde.