29/08/2025 - 14:29
Em uma ação qualificada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, como a maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história, foi exposta, na quinta-feira, 28 de agosto, uma teia de ações ilícitas que teriam movimentado R$ 140 bilhões.
Trata-se do resultado de atuação que reuniu numerosos órgãos públicos para deflagar as operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, com objetivo de desarticular organizações criminosas envolvidas em esquemas bilionários de lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e fraudes no setor de combustíveis.
A proporção do esquema e o envolvimento de centenas de empresas, fundos e gestoras expôs fragilidades regulatórias da legislação brasileira. Pior: a cobertura errática da imprensa e a publicação de informações desencontradas acabam por conectar organizações idôneas a práticas ilegais indiscriminadamente, o que prejudica e descredibiliza o mercado financeiro como um todo.
Um dos alvos da investigação é a Reag Investimentos, demonstrando como organizações criminosas podem se infiltrar no mercado financeiro formal, por meio de sistemas bastante complexos e de difícil detecção. A gestora mantém mais de 500 fundos sob custódia e se relaciona com todas as principais instituições financeiras e investidores do país, como Caixa Econômica Federal, Nubank, Banco Master e Genial, entre outros, family offices, fundos de pensão e de private equity nacionais e estrangeiros.
Bancas de advocacia que atuam no setor financeiro e conhecem a Reag e seus clientes não acreditam que haja envolvimento consciente da gestora. “Se estiver envolvida conscientemente, fecha o Brasil. É muita gente grande que usa a Reag como gestora. E gente grande mesmo”, disse uma fonte ao portal NeoFeed.
Em seu site, a Reag informa ser a maior gestora independente do Brasil, com R$ 299 bilhões sob seus cuidados, de acordo com ranking da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), de fevereiro de 2025. Também se orgulha de ser a primeira empresa de gestão de patrimônio listada na B3.
Na prática, pode estar incorrendo a agentes reconhecidos do mercado o mesmo risco ao qual um banco está sujeito quando acolhe em conta corrente os depósitos de uma empresa aparentemente regular, mas cujas fraudes são escamoteadas pela sofisticação dos métodos utilizados pelo crime organizado.
O tamanho operação na Faria Lima acendeu o sinal de alerta aos gestores de fundos, uma vez que a publicidade do caso gera temor dos clientes, um risco que precisa ser minimizado com urgência pelas autoridades competentes.
O tamanho de esquema extrapola o mercado financeiro. Investigações apontam que o PCC, por exemplo, conseguiu se infiltrar até em grandes bandeiras de distribuição de combustíveis com empresas de fachada sem ser detectada.
Reação do governo
No começo do ano, a Receita Federal tentou apertar a fiscalização das movimentações financeiras ao incluir a obrigatoriedade de as instituições financeiras informarem até transações de pequena monta com Pix para coibir lavagem de dinheiro. Mas teve de voltar atrás depois de ser metralhada pela disseminação de notícias falsas, como a de que sua intenção era taxar os trabalhadores autônomos. Episódio que deu ampla notoriedade ao deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), autor confesso da fake news.
Ontem, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que será retomada a exigência frustrada da Receita Federal e enfatizou que será necessário rever as regras de gestoras de ativos e patrimônio para evitar que o crime organizado continue lavando seu dinheiro ilícito.
Uma resposta rápida da Fazenda, Banco Central e CVM, com apoio responsável do Congresso e Judiciário, será decisiva para que o sistema financeiro nacional coíba a infiltração do crime organizado na economia formal e fortaleça a imagem do país para investidores privados brasileiros e do exterior.