24/04/2026 - 11:44
País havia crescimento de 1% em 2026, mas revisou projeção para baixo por causa dos impactos da guerra no Irã, que vêm ameaçando cada vez mais a tímida recuperação econômica após anos de estagnação.Apenas três meses após projetar um avanço de 1% para seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, o governo alemão revisou os dados e cortou a estimativa pela metade. A maior economia da Europa agora deve crescer apenas 0,5% no próximo ano, informaram as autoridades, abaixo da previsão divulgada em janeiro.
O choque energético provocado pela guerra no Oriente Médio foi apontado como o principal responsável pela revisão do cenário econômico, que também levou o governo a cortar a previsão de crescimento de 2027 para 0,9%, ante 1,3% calculado anteriormente.
Havia grandes expectativas de que o pacote de gastos públicos do chanceler federal alemão Friedrich Merz faria o país voltar a crescer após anos de estagnação. Mas o salto nos preços do petróleo e do gás desde o início da guerra no Irã impactou a economia, elevando a inflação e aumentando os custos para os fabricantes, setor crucial do país.
“A escalada nos fez recuar economicamente”, afirmou a ministra da Economia da Alemanha, Katherina Reiche ao apresentar os dados nesta quarta-feira (22/04). “A situação continua altamente volátil.”
Segundo Reiche, o relatório econômico anual apresentado em janeiro, antes do início da guerra, ficou agora obsoleto. Na época, ele previa uma recuperação econômica lenta, porém constante.
Uma série de cenários foi agora mapeada pelo Ministério da Economia: um em que a escalada no Golfo continua — mantendo o Estreito de Ormuz fechado — e outro em que a guerra termina rapidamente e a livre circulação de mercadorias pelo estreito volta a ser possível.
Em qualquer cenário, Reiche avalia que a inflação deve subir com mais força neste ano — para 2,8%. O aumento dos preços é impulsionado pelos custos mais altos de gasolina, petróleo, gás e eletricidade. Os custos dos alimentos também devem subir ainda mais.
Choque, crise e instabilidade provocados pela guerra com o Irã
Os tímidos sinais de recuperação econômica que começaram a surgir após três anos de estagnação, de 2023 a 2025, agora estão sendo atingidos por ventos contrários cada vez mais fortes, disse Reiche. “A guerra no Oriente Médio desencadeou um choque nos preços da energia fora do nosso controle, e isso pesa fortemente sobre as famílias e a economia.”
Reformas estruturais para fortalecer a competitividade das empresas alemãs são agora mais urgentes do que nunca, acrescentou a ministra.
“A crise não pode obscurecer as tarefas que temos pela frente”, afirmou. “Nosso crescimento potencial é baixo demais, e precisamos elevá‑lo. Nossa competitividade está sob forte pressão.”
A análise do Ministério da Economia mostra que o crescimento potencial de 0,5% ao ano é pouco para garantir a prosperidade do país. Um número crescente de empregos industriais na Alemanha está sendo cortado e, em alguns casos, transferido para o exterior, disse Reiche. Ex‑presidente de uma empresa de energia, ela alertou que a Alemanha está perdendo terreno para concorrentes na Europa e no mundo.
“Nossa fraqueza de crescimento é, acima de tudo, estrutural — outros países fizeram o dever de casa”, afirmou. Segundo a Comissão Europeia, em Bruxelas, a Alemanha continua ocupando a última posição nos rankings de crescimento da Europa.
Reiche não quer compensar preços altos de energia
Reiche, da União Democrata Cristã (CDU) vê com ceticismo novas intervenções no mercado e medidas de apoio estatal, como tetos para os preços dos combustíveis ou cortes de impostos sobre a energia, ao contrário do ministro das Finanças, Lars Klingbeil, do Partido Social‑Democrata (SPD).
“Medidas de alívio tributário não caem do céu”, disse. O dinheiro para financiá‑las “primeiro precisa ser ganho”.
Ela argumenta que algumas das propostas defendidas pelo SPD como um imposto especial sobre lucros extraordinários da indústria do petróleo, por exemplo, poderia levar operações de refinarias a deixar a Alemanha.
Na quarta‑feira, a Comissão Europeia também apresentou sua avaliação sobre um possível imposto europeu sobre lucros excessivos, mas o bloco compartilha do ceticismo da ministra alemã da Economia. A UE já havia permitido uma cobrança desse tipo antes, durante o pico de preços no início da guerra da Rússia contra a Ucrânia. Contestações jurídicas a essa taxa, que rendeu 2,5 bilhões de euros (R$14,7 bilhões) aos cofres públicos alemães, ainda estão pendentes no Tribunal de Justiça da União Europeia, em Luxemburgo.
A dívida pública da Alemanha está aumentando
Os principais institutos de pesquisa econômica já haviam divulgado sua previsão de que o crescimento econômico da Alemanha será apenas metade do que se supunha antes do início da guerra com o Irã.
Timo Wollmersheim, pesquisador de ciclos econômicos do instituto Ifo, em Munique, destacou que o crescimento mínimo deste ano é impulsionado principalmente por investimentos públicos financiados por dívida — e isso tem um custo.
Os pesquisadores apontam para “riscos de longo prazo à estabilidade das finanças públicas e para as substanciais necessidades de consolidação previstas para o fim da década”. Na prática, isso significa que os pagamentos de juros no orçamento federal vão aumentar de forma acentuada. O dinheiro gasto com o serviço da dívida deixará então de estar disponível para serviços sociais ou pensões.
Uma grande maioria das empresas alemãs relata efeitos negativos da guerra no Oriente Médio, segundo uma pesquisa da Câmara Alemã de Indústria e Comércio.
Empresas internacionais também estão reduzindo investimentos na Alemanha: a energia é cara demais; a burocracia, excessiva; e a digitalização, ainda lenta, de acordo com uma pesquisa com 400 empresas internacionais conduzida pela KPMG.