19/02/2015 - 19:15
A Grécia enviou nesta quinta-feira a seus parceiros europeus uma proposta financeira na qual reitera sua oposição à austeridade, suscitando a rejeição do ministro da Economia alemão, antes de ser considerada um ponto de partida pelo vice-chanceler da Alemanha.
O governo grego propôs, em uma carta ao Eurogrupo, uma extensão por seis meses do acordo de empréstimo europeu, período em que se compromete com o equilíbrio orçamentário, mas confirmou que é contra as medidas de austeridade, segundo uma fonte governamental em Atenas.
“O executivo de Alexis Tsipras, em consonância com suas promessas, não pediu a extensão do memorando”, programa de ajuda em vigor desde 2010 em troca de duras medidas de austeridade, “mas uma ampliação do acordo de empréstimo europeu por meio de um acordo-ponte de seis meses durante os quais se compromete com o equilíbrio orçamentário”, disse a fonte.
O governo grego de esquerda se comprometeu em uma carta a aceitar a supervisão dos credores (UE, BCE e FMI), embora não utilize a palavra “troika”. Compromete-se a “financiar plenamente qualquer nova medida, mas se abstendo de qualquer ação unilateral que possa afetar as metas orçamentárias, a recuperação econômica e a estabilidade financeira”.
Uma reunião de ministros da Economia da zona do euro (Eurogrupo) será realizada na tarde da sexta-feira, em Bruxelas, para decidir sobre o pedido da Grécia.
A proposta grega, a princípio, foi mal recebida nesta quinta-feira pela Alemanha, maior economia da zona do euro. O ministério alemão da Economia considerou em um comunicado que “não é uma proposta de solução substancial” e que “não responde aos critérios da zona euro”.
No entanto durante a tarde, Tsipras argumentou uma reunião telefônica de cerca de 50 minutos com a chanceler Angela Merkel, que evoluiu no sentido de “encontrar uma solução útil para Atenas e Europa”, disse uma fonte do governo grego.
Apesar de uma fonte do governo grego rer reagido às declarações iniciais da Alemanha, dando a entender que alguns países da zona do euro não querem uma solução para as negociações, buscou-se um tom conciliador.
O governo grego não reagiu à declaração emitida por um funcionário alemão do comitê técnico europeu que avaliou a proposta, dizendo que o plano apresentado se tratava de um “cavalo de Troia”.
O vice-chanceler do governo alemão e ministro da Economia, Sigmar Gabriel, afirmou que o pedido gregi de estender a ajuda que recebe dos parceiros europeus “não é suficiente”, embora “possa ser tomada como ponto de partida” para as negociações.
Gabriel reconheceu que a postura de Atenas é “um passo gigante para que o governo grego aceite que sem um plano não haverá ajuda”. E acrescentou: “todos devemos deixar de lançar ultimatos.
A Alemanha insiste no cumprimento do plano de ajuda à Grécia que está em vigor.
Por trás do debate semântico sobre a extensão do empréstimo ou do programa de ajuda, se esconde uma verdadeira divergência de fundo: a Grécia quer uma extensão de seu financiamento com algumas condições, mas seus parceiros europeus -em especial a Alemanha- insistem em se basear no programa atual, com as contrapartidas de austeridade.
Atenas não quer aplicar a última série de medidas de austeridade do “memorando” que termina no final de fevereiro, entre elas a alta do IVA (imposto de valor agregado) e uma flexibilização dos direitos trabalhistas.
Mas a pressão é muito forte por parte da Alemanha, guardiã da ortodoxia. “A solidariedade não caminha em sentido único”, advertiu na quarta-feira à noite, em uma reunião, a chanceler Angela Merkel.
Para Berlim, uma extensão da ajuda é “indissociável” da realização de reformas previstas no acordo firmado com a Grécia em 2010 e renovado em 2012.
O comissário de assuntos europeus, Pierre Moscovici, que exerce a mediação se declarou convencido de que há “margem de manobra”. “É muito importante que façamos os esforços necessários para evitar uma ruptura que seria absurda e prejudicial para todos na zona do euro”, argumentou.
Para analistas, a ausência de acordo no final deste mês -quando o programa termina- pode precipitar a saída da Grécia da zona do euro.
Tsipras prevê submeter nesta quinta-feira ao parlamento grego uma série de leis sociais para aliviar a crise humanitária vivida pelo país.
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