A cena foi constrangedora. O presidente Lula estava no gabinete com alguns auxiliares quando lhe anunciaram a chegada do governador Jarbas Vasconcelos, de Pernambuco. Lula mandou que entrasse e, ao vê-lo, exclamou: ?Jarbas, você é o vice que eu sonho ter na minha chapa?. José Alencar, o vice-presidente, estava na sala. Tal descortesia, ocorrida em setembro do ano passado, dispensa comentários. Hoje, a relação entre o presidente operário e seu vice empresário é ruim e bem diferente da de janeiro de 2003, quando os dois subiram juntos a rampa do Palácio do Planalto, sinalizando uma possível aliança entre capital e trabalho. Depois de muitos outros atritos, o divórcio entre os dois foi sacramentado na semana passada, quando Alencar procurou Lula para lhe dizer que deixará o Ministério da Defesa. O vice indicou ainda um prazo, 31 de março, para que o presidente encontre um substituto. Tal data é o limite para a desincompatibilização dos candidatos às eleições de 2006 que estejam ocupando cargos públicos. ?Ainda não sou, mas não posso abrir mão do direito de vir a ser candidato?, disse Alencar à DINHEIRO (leia sua entrevista abaixo). Ele permanecerá como vice, o que não o impedirá de disputar as eleições.

Ainda que não admita oficialmente, o movimento de Alencar, dono da maior empresa têxtil nacional, a Coteminas, é claro. Ele decidiu enfrentar Lula e será candidato à presidência em 2006. ?Essa política monetária tem de mudar com urgência?, diz ele. A tese do vice é que Lula não teve coragem para mudar o rumo da economia ? e disso decorre o crescimento medíocre. Como o vice tem sido o principal porta-voz da insatisfação empresarial em relação às taxas de juros, sua saída também indica que há cada vez menos representantes da economia real dispostos a apoiar Lula num eventual segundo mandato. Outros dois empresários que fazem parte do governo ? os ministros Roberto Rodrigues e Luiz Fernando Furlan ? também já sinalizaram ao presidente que não ficarão em Brasília em 2007. E capitães da indústria paulista também retiraram seu apoio ? é o caso de Eugênio Staub, da Gradiente. ?Como o PIB não cresce, os empresários estão se afastando do governo?, avalia o cientista político Ricardo Guedes, do Instituto Sensus. ?Só os banqueiros permanecem?, cutuca o analista político Walder de Góes.

Nas conversas privadas, Alencar, que irá concorrer pelo Partido Republicano Brasileiro, uma agremiação nanica, classifica seu projeto presidencial como uma ?candidatura pedagógica?. Ele avalia ser difícil vencer, mas quer aproveitar o palanque para denunciar os erros da política econômica. Hoje, sua principal motivação é forçar o candidato vencedor a se comprometer com o crescimento. Amigo do professor Carlos Lessa, que elaborou o programa econômico do PMDB, Alencar acredita ser possível reduzir os juros para 5% ou 6% ao ano, como ocorre em quase todos os países do mundo, à exceção do Brasil. O vice acredita que a redução dos juros irá liberar recursos para investimentos, que garantiriam o aumento da oferta e a manutenção de uma inflação baixa.

A saída do ministro da Defesa também reflete sua insatisfação com o estilo de Lula ? o presidente retirou vários dos poderes de Alencar, desde que o vice deixou claro seu projeto político pessoal. Entre eles, o de decidir sobre compras das Forças Armadas. Lula também começou a contratar o Exército para tapar buracos nas estradas sem escutar o ministro. A última manifestação de desdém foi mandar o chanceler Celso Amorim anunciar o novo general comandante das forças de paz no Haiti ? tal atribuição seria de Alencar. Depois que o copo entornou, o vice formalizou a saída e Lula pediu apenas alguns dias para encontrar um novo nome para a pasta. O curioso é que, no início do governo Lula, observadores experientes da cena brasiliense, como o ex-ministro Delfim Netto, admiravam a desenvoltura de Alencar. Era um sinal da relação de confiança e cumplicidade com o presidente. Hoje, os dois não apenas estão distantes como serão, a cada dia que passa, mais e mais adversários.

?O BAIXO CRESCIMENTO AFASTA EMPRESÁRIOS?

Maurílio Cheli/AE
Critica constante: Alencar nunca aceitou a política monetária

DINHEIRO ? Por que o sr. decidiu deixar o Ministério da Defesa?
JOSÉ ALENCAR
? Porque a lei eleitoral exige a desincompatibilização. Mesmo que eu não seja candidato, como ainda não sou, eu não poderia abrir mão do direito de sê-lo. Tenho que ser livre para decidir.

DINHEIRO ? E quando o sr. sai?
ALENCAR
? Tem que ser até o dia 31 de março. Mas será algo feito sem nenhum atropelo para que o presidente Lula possa escolher o melhor sucessor. Não existe nenhum desentendimento.

DINHEIRO ? O que ele achou da sua saída?
ALENCAR
? Ele entendeu as minhas razões.

DINHEIRO ? O sr. se candidatará a que cargo?
ALENCAR
? Pode ser até a deputado estadual.

DINHEIRO ? O ex-presidente Itamar Franco o lançou à presidência.
ALENCAR
? Foi uma gentil homenagem.

DINHEIRO ? Ele diz que o Brasil precisa de um presidente de fora de São Paulo.
ALENCAR
? São Paulo é sinônimo de desenvolvimento, de ousadia e de espírito empreendedor, o que não significa que essas virtudes sejam só paulistas.

DINHEIRO ? Sua saída revela o afastamento entre os empresários e o governo?
ALENCAR
? O que pode afastar um empresário do governo é o baixo crescimento. É por isso que eu critico tanto a política monetária. Aliás, de forma coerente, desde o primeiro dia. E, como a política de juros não mudou, eu digo que o projeto que venceu as eleições não assumiu o poder.