07/02/2023 - 13:26
Os moradores da cidade síria de Aleppo, devastada por anos de guerra, agora se apressam para enterrar seus mortos e, ao mesmo tempo, rezam pelos que ainda continuam vivos sob os escombros, após o devastador terremoto de segunda-feira (6).
No bairro de Bustan al-Qasr, um grupo formado por socorristas, soldados e voluntários tenta remover os escombros de um edifício em meio a baixas temperaturas.
Quando eles conseguem criar uma pequena abertura, um deles, coberto de poeira, grita para saber se há sobreviventes. Uma vítima responde e, imediatamente, ele a pede que o guie para poder chegar até ela.
Perto das ruínas, Oum Ibrahim reza um rosário e seca as lágrimas de seus olhos com um lenço. Vários familiares esperam a seu lado.
“Espero que os socorristas tirem meus filhos que estão soterrados. São sete. Confio em Deus”, diz Ibrahim à AFP. Esta mulher, de 56 anos, passou a noite em um carro estacionado perto do edifício.
Quando o terremoto sacudiu a cidade na madrugada de segunda, ela correu para chegar ao local. “Desde então, não bebi nem comi nada. Como poderia se meus filhos estão sentindo fome debaixo da terra?”, se pergunta, aos prantos.
Mahmoud Ali também chegou pouco depois que o edifício havia colapsado, quando ainda estava escuro. Ele se irrita e perde a paciência com a lentidão dos resgates.
“Minha família não teve tempo de sair do imóvel. Estão sob os escombros”, garante. “Ouvi seus telefones tocando quando liguei, e depois mais nada, certamente estavam sem bateria”, afirma. “Espero que aguentem até que a escavadeira chegue”, acrescenta.
– Sepulturas –
A seu lado está Oum Mohammad, uma mulher com os ombros cobertos por um lenço de lã. Também espera ansiosa para saber se sua irmã e seus quatro filhos seguem vivos.
“Eles não tiveram tempo de sair, ainda estão bloqueados nas escadas”, diz, após ter passado a noite na rua.
“O terremoto é mais difícil que a guerra. Durante a guerra, cai o projétil e acabou. Mas agora, não sabemos nada.”
Bustan al-Qasr ainda tem evidentes as cicatrizes da guerra. O bairro estava no meio dos combates quando Aleppo ainda estava dividida em duas.
De um lado, estavam as áreas controladas pelos rebeldes. Do outro, as do Exército sírio. Em dezembro de 2016, as forças governamentais recuperaram o controle da cidade.
Lojas e restaurantes permanecem fechados em Aleppo. Muitos moradores, que passaram a noite em parques, conventos ou carros, apesar das baixas temperaturas, estão voltando agora para casa.
Muitos edifícios de Aleppo, que fica no norte da Síria, a menos de 60 km da Turquia, vieram abaixo após o tremor.
A cidade velha, considerada um patrimônio mundial em perigo pela Unesco, ficou bastante danificada, assim como sua famosa cidadela, que domina a paisagem local.
O terremoto deixou mais de 5.400 mortos nesses dois países, segundo os últimos balanços.
Em um dos cemitérios, os coveiros preparavam as sepulturas das vítimas, segundo um jornalista da AFP presente no local.
Veículos – inclusive o de um vendedor de sorvete, na falta de ambulâncias – transportavam os corpos retirados dos escombros.
As vítimas são enterradas com toda a pressa.
Um grupo de homens de uma mesma família chega com seis corpos em sacos brancos de plástico. Os colocam no chão, um do lado do outro. Fazem uma oração antes de enterrá-los.
Depois chega outro grupo, desta vez com 11 corpos. Todos pertencem a uma mesma família.
Ao responsável do cemitério, pedem que guarde um lugar para mais um corpo que ainda não tinha sido retirado dos escombros.
