01/06/2026 - 19:15
Responsável por empregar mais de 250 mil trabalhadores e reunir milhares de pequenos agricultores em todo o país, o setor brasileiro de alho consolidou-se como um importante pilar do abastecimento interno e da geração de renda no campo. Com cerca de 16 mil hectares plantados em diferentes regiões do território nacional, a produção brasileira — concentrada em estados como Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Piauí e Espírito Santo, além do Distrito Federal — exerce papel estratégico na segurança alimentar, reduzindo a dependência externa e garantindo a oferta de um produto amplamente consumido nos lares brasileiros.
Apesar da relevância econômica e social, o setor atravessa um cenário de forte pressão. A safra 2025/26 é encerrada em meio a um desequilíbrio econômico provocado, segundo representantes da cadeia produtiva, pela entrada massiva de alho importado a preços inferiores ao custo de produção nacional, além de suspeitas de triangulação comercial e descumprimento de obrigações tributárias em operações de importação. O resultado foi a redução da participação do alho brasileiro para apenas 20% do consumo interno em dezembro de 2025. O impacto atinge diretamente a agricultura familiar, responsável por 87% dos cerca de 40 mil estabelecimentos produtores do país.
“O alho é a principal fonte complementar de renda de milhares de pequenos agricultores brasileiros. Trata-se de uma cultura que movimenta mais de R$ 6 bilhões, gera empregos, sustenta famílias no campo e mantém economias locais ativas”, afirma o presidente da Associação Nacional dos Produtores de Alho (ANAPA), Rafael Corsino. “Quando importações ocorrem em condições desleais, o risco não recai apenas sobre o produtor, mas sobre toda uma cadeia econômica e social.”
Impacto sobre produtores e preços internos
Embora o Brasil tenha registrado, em 2025, uma das melhores safras da última década em termos de qualidade, o escoamento da produção nacional segue comprometido. Dados do setor apontam que o consumo aparente no país gira em torno de 2,56 milhões de caixas por mês. Em dezembro de 2025, no entanto, o volume importado alcançou 2,11 milhões de caixas — o maior patamar mensal já registrado.
O pico das importações coincidiu com o período de comercialização da nova safra do Sul e do Cerrado brasileiros. Ao longo de 2025, o volume total de alho importado chegou a 15,88 milhões de caixas, um aumento de 9% em relação a 2024. A Argentina respondeu por 55% desse total, seguida pela China, com 42%, ampliando a pressão sobre o mercado interno, especialmente no segundo semestre do ano.
Com o aumento da oferta estrangeira, os preços pagos ao produtor nacional recuaram para níveis inferiores ao ponto de equilíbrio da atividade. Em 2025, o custo médio de produção do alho do Cerrado foi de R$ 136 por caixa de dez quilos, enquanto os preços de venda chegaram a R$ 110 em dezembro. Para produtores com produtividade média, o cenário representou prejuízo estimado em cerca de R$ 50 mil por hectare. Diante das perdas e das dificuldades de comercialização, o setor já projeta retração na área plantada para o ciclo de 2026.
“O produtor investiu em tecnologia, qualidade e produtividade, e hoje o país já possui capacidade para atender uma parcela cada vez maior do consumo interno. Atualmente, somos responsáveis por cerca de 60% do mercado doméstico. O que o setor precisa agora é de previsibilidade e de condições justas para continuar produzindo”, destaca Rafael Corsino.
Suspeitas de distorções comerciais
Representado pela ANAPA, o setor produtivo formalizou alertas ao Ministério da Agricultura, à Vigiagro, à Coordenação-Geral de Administração Aduaneira (Coana) e ao Departamento de Defesa Comercial (Decom) sobre possíveis irregularidades em operações de comércio exterior envolvendo alho importado. Entre os pontos levantados está a suspeita de triangulação de alho de origem chinesa via Egito, com o objetivo de evitar a aplicação de sobretaxas previstas pela legislação brasileira.
Em 2024, o Egito exportou 3,82 milhões de caixas de alho, o equivalente a 1,3% do volume global. Já em 2025, o país tornou-se o terceiro maior fornecedor do produto ao Brasil, com cerca de 390 mil caixas internalizadas. Diante desse cenário, o setor defende maior fiscalização para verificar a compatibilidade entre os volumes importados, a capacidade produtiva declarada e o cumprimento das regras de origem.
Outro ponto de atenção envolve o desembaraço de alho chinês sem o recolhimento integral do direito antidumping. Documentos encaminhados à Receita Federal indicam que parte das importações estaria sendo amparada por liminares baseadas na Portaria SECINT nº 4.593/19, norma substituída pela Resolução GECEX nº 797, em vigor desde setembro de 2025.
Em dezembro de 2025, o alho chinês foi comercializado no atacado paulista da Ceagesp por cerca de R$ 130 a caixa, valor inferior ao custo legal estimado de internalização, próximo de R$ 155. Segundo representantes do setor, a diferença reforça questionamentos sobre o cumprimento das taxas protetivas previstas na legislação vigente.
