Christian Smalls já não trabalha mais no armazém JFK8 da Amazon em Nova York, mas ainda se encontra com seus ex-colegas todos os dias no ponto de ônibus que os leva ao trabalho.

Sua missão: convencer os trabalhadores a formar um sindicato.

A gigante do comércio eletrônico, um dos maiores empregadores dos Estados Unidos, conseguiu se manter livre dos sindicatos, até agora, em seu mercado doméstico.

Contudo, em três de suas instalações nos Estados Unidos, a Amazon está prestes a enfrentar votações que poderiam estabelecer uma primeira presença sindical, o que, segundo analistas, daria impulso para campanhas similares em outros lugares.

Em JFK8, no distrito de Staten Island, 5.000 trabalhadores estão aptos a votar pelo sindicato entre 25 e 30 de março. Outra votação está programada para 25 de abril em um centro de classificação que emprega 1.500 pessoas, também em Staten Island.

Já no estado do Alabama, no sul do país, mais de 6.000 funcionários do armazém Bessemer terão, até 25 de março, uma nova oportunidade de votar para formar um sindicato.

No ano passado, a maioria dos trabalhadores desse armazém votou contra a sindicalização, mas funcionários do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos impugnaram o resultado do processo citando “interferência” por parte da Amazon.

– Vontade de mudança –

Smalls foi demitido em março de 2020 depois de organizar um protesto exigindo equipamento de proteção em meio ao primeiro grande surto de covid-19 em Nova York.

Ao invés de sair em silêncio, Smalls se manifestou com veemência sobre a sua experiência e continuou pedindo apoio aos trabalhadores essenciais.

Logo depois da primeira votação em Bessemer, Smalls criou junto com outros funcionários atuais e antigos da Amazon, em abril de 2021, o Sindicato de Trabalhadores da Amazon (ALU, na sigla em inglês).

“Sei que estou do lado certo nesta luta”, disse Smalls à AFP no início deste mês, durante um evento no qual 20 voluntários se uniram para promover o potencial de um sindicato pela melhoria de salários, condições de trabalho, benefícios e segurança.

Por sua vez, Isaiah Thomas, funcionário da Bessemer, usa quase os mesmos argumentos para convencer seus colegas na Amazon a criar um sindicato.

“Na hora em que entrei pela porta no meu primeiro dia de trabalho, soube que necessitávamos fazer uma mudança na Amazon”, em segurança, carga de trabalho e períodos de descanso, por exemplo, disse Thomas.

– Uma luta difícil –

Tanto em Nova York como no Alabama, a Amazon tem tentado desencorajar os trabalhadores a se unir a sindicatos, especialmente convocando os mesmos para reuniões obrigatórias.

A empresa alega que formar um sindicato desfiguraria a relação direta que mantém com seus funcionários, sem garantias de que eles terão salários maiores ou mais segurança no trabalho.

“Nossos funcionários têm a opção de se juntar ou não a um sindicato”, afirmou a porta-voz da Amazon, Kelly Nantel. Contudo “não consideramos que os sindicatos sejam a melhor resposta para os nossos funcionários”, acrescentou.

Além disso, Nantel exaltou os benefícios da empresa, que incluem atendimento médico e financiamento universitário depois de três meses de trabalho.

Uma vitória do impulso sindical “seria enorme e bastante inspiradora para outros que trabalham na Amazon”, disse Ruth Milkman, socióloga de movimentos trabalhistas da The City University de Nova York.

Contudo, “não sou otimista”, reconheceu. A legislação trabalhista dos Estados Unidos acumula prerrogativas em favor da empresa e dificulta as tentativas de sindicalização.

Em Nova York, a ALU preferiu manter-se independente e, portanto, não tem recursos suficientes para se contrapor aos esforços da Amazon, enfatizou Milkman. Já em Bessemer, os trabalhadores têm poucas alternativas de trabalho que paguem tão bem quanto a Amazon, que é mais que o dobro do salário-mínimo federal.

“Você pode se sentir intimidado pela propaganda do empregador”, disse Milkman, que acrescentou que os trabalhadores “vão pensar duas vezes” antes de mudar de rumo.