Mudanças estruturais e regulatórias do Ministério da Educação (MEC) que vetam ensino 100% à distância (EAD) para algumas áreas devem fazer com que, formalmente, uma parte do mercado de educação desapareça – e, portanto, rearranje a forma com que as companhias do ramo atuam.

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Ao Dinheiro Entrevista, a CEO da Ânima Educação, Paula Harraca, comenta que a mudança estrutural – que vigora desde setembro de 2025 – demanda um novo fluxo de trabalho e muda a dinâmica do setor, afetando cerca de 1 milhão de alunos.

“É uma mudança estrutural. Apesar de ter um tempo de adaptação, já gera impactos imediatos e que ela vem ao encontro do que a Ânima sempre acreditou, que é que a educação com qualidade em escala se faz possível através da hibridez. A hibridez é a modalidade que permite você escalar não apenas uma experiência de aprendizagem digital passiva, mas com interação, com moderação, controle”.

O que o MEC propôs foram novas diretrizes que exigem que cursos das áreas da Saúde, Engenharia e Licenciaturas (como Pedagogia) tenham uma carga horária presencial muito maior do que a praticada anteriormente, tornando-os obrigatoriamente híbridos ou predominantemente presenciais.

Antes disso, a pasta já havia suspendido a criação de novos cursos EAD nessas áreas até março de 2025, estabeleceu novas regras (consolidadas principalmente em decretos e portarias de 2024/2025) para garantir a qualidade da formação.

O MEC também concretizou o fim do 100% EAD para graduações que exigem atividades práticas, estágios e interação humana direta.

Na área da saúde a restrição é a mais severa, dado que os conselhos profissionais – como CFM, Cofen, CRF e Crefito – pressionaram fortemente contra o EAD. Cursos 100% online foram vedados, e a exigência é de que a maior parte da carga horária, especialmente as disciplinas assistenciais e os estágios, seja presencial.

O curso se torna, na prática, presencial com suporte tecnológico (algumas matérias teóricas online), e não um curso majoritariamente online com encontros presenciais de forma eventual.

Ânima antecipou recuo do EAD na área da saúde

“O marco regulatório dá ainda mais força a esse movimento, mas a gente começou ano passado já a fazer um movimento de segmentação e olhar para qual EAD ou tier que a gente não quer estar. Isso conversa com a nossa proposta de valor, com que nós acreditamos”, diz Paula Harraca.

Já há cerca de três anos, a Ânima parou de ofertar cursos de saúde a distância – fazendo com que a empresa não tenha que fazer correções de rota após a nova normativa do MEC.

“Deixamos de ofertar por convicção, por crença. Não concordamos que um profissional, por exemplo, de enfermagem, pode aprender assistindo passivamente um vídeo ou lendo um PDF sobre como se tira sangue. É um ser humano, é preciso estar junto e aprender e fazer ao vivo.”

Assim, a companhia fez uma reintegração do digital às marcas que estão sob seu guarda-chuva.

“Para nós, o EAD é experiência de aprendizagem digital, não é ensino a distância. Através da tecnologia conseguimos proporcionar uma experiência de aprendizagem que permita a flexibilidade que o aluno tem. É claro que é um negócio que tem uma rentabilidade bastante alta, mas que permite conciliar cada vez, como se fosse uma porta de entrada, já que o aluno que entra pelo ensino a distância tem acesso a outras coisas e, na medida que ele começa a ver que pode enriquecer sua experiência de aprendizagem com mais interação, com mais troca, ele vai customizando.”

Em outras palavras, a companhia deixou de enxergar as modalidades de ensino como produtos apartados e distintos, mas como produtos integrados.

“Acreditamos no lifelong learning, para que o aluno possa cada vez mais encontrar o melhor dos dois mundos, ter mais troca, mais presencialidade. E parte disso, sim, vemos que é uma migração natural para o híbrido, justamente por conta do marco regulatório, o que consideramos algo muito bom para a educação”, avalia Harraca.