18/05/2001 - 7:00
O ano passado foi o melhor da década para as companhias de capital aberto do Brasil. Uma pesquisa feita pela Economática, consultoria de dados de São Paulo, mostra que nunca houve resultados (receita mesmo, só descontando custos de produção e despesas operacionais) tão elevados como em 2000 para estas empresas. Pode parecer contraditório. E realmente é. Ainda mais para os investidores do mercado de ações que ouviram tantas más notícias neste mesmo período. Enquanto o lucro operacional dos grupos (aquele que não contabiliza os custos do dinheiro, normalmente captado no mercado financeiro) cresceu mais de 52% em doze meses, o Ibovespa fechou o ano com queda de 10,7%. ?Em qualquer economia estável e sensata, um dos principais componentes na variação de um papel é a saúde financeira da empresa?, diz um dos autores do estudo Fernando Exel, da Economática. ?O que pode parecer uma distorção é, na verdade, a prova de como o mercado brasileiro sofre o impacto de outros fatores, além do desempenho empresarial.?
Fatores internacionais (como a suposta recessão americana e a crise argentina), problemas políticos internos (como a atual crise no fornecimento de energia) e o pesadelo da especulação. Tudo isso tem peso de chumbo na valorização das ações, mas nem sempre tem a mesma força no caixa da empresa. ?Tivemos em 2000 o melhor ano dentro de uma década sem precedentes em relação a receita?, explica Exel. A não ser 1999, quando o efeito da desvalorização do real mexeu com todas as contabilidades brasileiras, as empresas mantiveram resultados crescentes ano a ano. O maior deles foi entre 1999 e 2000, 20,2%. O segundo maior au mento de receita foi de 1991 para 1992, quando a alta alcançou 15,3%.
O que contribuiu para as cifras a mais foi o equilíbrio no tripé mais importante no bastidor empresarial: vendas, custo da matéria-prima e despesas operacionais. As vendas cresceram sem parar nos últimos dez anos. O custo operacional aumentou, mas não na mesma proporção das receitas. E as despesas de produção (rubrica em que entram salários de executivos e gastos variáveis) quase não sofreram alteração no período.
E como tirar proveito disso tudo? Um bom começo é definir de que lado você quer estar como investidor. Na Bolsa existem dois perfis de aplicadores: os que apostam na valorização do papel e mudam as opções de acordo com a avaliação do mercado e aqueles que têm interesse mesmo nos dividendos e, por isso, saem ganhando com os bons resultados das companhias, independente da inconstância dos pregões. ?Para estes, agora é um ótimo momento para investir?, avisa Álvaro Souza Barros, da Souza Barros Corretora de Valores de São Paulo. ?Isso acon tece porque é possível aproveitar a baixa do mercado para comprar ações de empresas consolidadas por preços menores.? Na pior das hipóteses, mesmo com todas as quedas na Bolsa de Valores, os ganhos virão pelo pagamento de dividendos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com quem manteve as apostas em uma dessas companhias que tiveram resultados surpreendentes no ano passado.
Comece então analisando a lista das corporações que mais contribuíram para a alavancada da década. A Economática analisou o desempenho de todos os grupos que atuam na Bovespa, só deixando de fora os bancos. E pelo menos dez brilharam como nunca em 2000: Petrobras (refinaria), Brasil Telecom, Petrobras Distribuidora, Vale do Rio Doce, Ambev, Gerdau, Telesp Celular, Embraer, Telemar e Pão de Açúcar. Desta lista, os analistas apenas sugerem mais cautela no setor de siderurgia, no caso Vale e Gerdau. ?Elas podem ter seus resultados afetados nos próximos dois anos em função da crise energética?, ressalta Souza Barros. Fora as duas, os consultores confiam que os balanços continuarão positivos e até surpreendentes nos próximos anos, independente dos impactos que as crises externas podem causar.
ESTRELA. A avaliação da Economática considerou números diferentes de empresas, já que em 1990 a quantidade de companhias com capital aberto era bem inferior. Entre 1999 e 2000 foram 228 grupos que juntos somaram um lucro operacional na ordem de R$ 329,5 bilhões. Só a Petrobras representa R$ 17,6 bilhões desse total. ?Isso a torna a grande estrela da década em resultados financeiros?, reforça Exel. Mas também no caso isolado da Petrobras, nem sempre o desempenho financeiro conjugou com valorização na Bolsa de Valores de São Paulo. O grande ganho de receita da empresa foi entre 1999 e 2000, quando as vendas saltaram de R$ 33,02 bilhões para R$ 50,59 bilhões. Uma variação de 53% impulsionada, principalmente, pela crise internacional do petróleo. Já nos pregões, a ação teve desvalorização no mesmo período de quase 10%. O papel que em 1999 era negociado a R$ 49,24 fechou 2000 a R$ 44,88. A explicação, na opinião de Souza Barros, está no próprio comportamento do mercado. ?É natural que a Bolsa antecipe as expectativas de melhora.? Ainda no caso da Petrobras, a grande alta ocorreu entre 1998 e 1999, quando o preço negociado do papel saltou de R$ 17 para R$ 49,24. Mais uma prova que nem sempre o resultado de caixa reflete na mesma medida na Bolsa. E vice-versa.