A versão brasileira do maior provedor de internet do mundo, a America Online, resistiu por muito tempo antes de entender o óbvio. Na semana passada, finalmente, durante o anúncio da nova estratégia, a companhia deu sinais de ter percebido os motivos do insucesso. ?A internet brasileira é diferente do resto do mundo?, afirma Milton Camargo, o atual presidente da AOL. ?Agora estamos focando nos reais interesses do usuário brasileiro.? Frases óbvias, mas sem qualquer ressonância em novembro de 1999, quando a AOL desembarcou no Brasil acreditando na repetição do modelo americano. Lá a companhia faz tudo para os seus clientes, numa espécie de alfabetização virtual. Com isso, conseguiu se transformar no maior provedor de internet do planeta, com mais de 33 milhões de assinantes. A empresa cresceu tanto que em 2000 fez uma fusão com o maior grupo de mídia do mundo, o Time Warner. No Brasil, os investimentos dos três sócios na operação, o grupo venezuelano Cisneros, o banco Itaú e a AOL Internacional, somaram cerca de US$ 175 milhões. Não deu certo. O provedor nunca fez cócegas no líder Universo On Line. Em maio do ano passado estimava (a empresa não divulga os números por país) que havia 700 mil assinantes no Brasil, a maioria usava o serviço gratuitamente porque era cliente do Itaú. Hoje, esse número não ultrapassa 350 mil. Algo bem distante do 1 milhão de assinantes, segundo projeções de mercado, esperados para dezembro de 2002. O prejuízo também é alto. Nos primeiros seis meses do ano chegou a US$ 30 milhões.

O tempo trouxe à tona o erro estratégico inicial. O slogan escolhido para a nova fase ? ?Você pediu, a AOL mudou? ? revela o quanto a empresa está disposta a fazer autocrítica. ?O sucesso de uma marca global está associada a centralização ou descentralização do comando?, afirma Guilherme Athia, diretor da Institucional, empresa especializada na construção de marcas. Camargo está na empresa desde julho de 2000, mas assumiu o comando em janeiro deste ano, tornando-se o quarto presidente. Engenheiro civil, ele conseguiu algo que seus antecessores tentaram à exaustão: carta branca para fazer a verdadeira AOL Brasil. Nos últimos meses, Camargo encomendou uma extensa pesquisa sobre os hábitos de consumo e comportamento do internauta. ?O usuário brasileiro tem uma visão lúdica do mundo virtual bem diferente do gosto americano?, diz o presidente. As mudanças anunciadas começam na forma que a AOL entrará na casa das pessoas. Antes era necessário um CD que instalava os programas de conexão no PC do cliente. O produto deixará de ser obrigatório. O software de instalação será copiado da internet. Outra novidade é o fim de um navegador próprio para entrar nas páginas da AOL Brasil. Desde a semana passada é possível fazer tal operação utilizando qualquer software com essa função. O provedor montará páginas de acesso de acordo com o perfil do seu público, que foi dividido em dois grupos. O primeiro deles usa a internet de maneira mais racional, em busca de informações práticas para o seu dia-a-dia. O segundo se posiciona de maneira mais emocional e navega à procura de entretenimento. ?Vamos segmentar o conteúdo?, afirma Camargo, que apostará alto nos serviços de banda larga.

O Itaú continuará apoiando o provedor, mas o acordo inicial foi revisto. Pelo contrato, a instituição se encarregaria de transformar anualmente 250 mil dos seus clientes em usuários da AOL. O banco de Roberto Setubal não tem mais tal responsabilidade. ?O tempo dos milagres acabou?, afirma o presidente da Associação Brasileira dos Provedores de Internet, Cassio Vecchiatti. No caso da AOL Brasil, o futuro não está tão claro. As mudanças chegam no momento em que a sociedade com o grupo de mídia Time Warner atravessa uma crise. Também foi anunciado na semana passada que o nome AOL sairá da marca resultante da fusão das companhias. No caso brasileiro ainda há o fenômeno da internet gratuita, que está consolidado com provedores como o iG e iTelefônica. ?Vamos provar que nada resiste ao bom trabalho?, afirma Camargo. Ele não aceita discutir a idéia, mas, talvez, esta seja a última chance da AOL no Brasil.