Manda a tradição coronelista baiana que, de dois filhos homens, um deve cuidar dos negócios da família para que o outro se dedique à política. Era esse o projeto de Antônio Carlos Magalhães. Com a morte prematura do deputado Luís Eduardo e a sua própria renúncia, na quarta-feira, 30 ? motivada por uma denúncia da revista ISTOÉ, mostrando que o senador se envolvera na fraude do painel eletrônico ? o plano foi por água abaixo. ACM despediu-se do Legislativo com um discurso pífio ? no qual descobriu, comicamente, que o governo ao qual serviu por seis anos é um fiasco econômico ? e juntou-se à hoste dos políticos em retração, para quem o futuro traz mais incertezas do que garantias. Seu filho mais velho, o empresário ACM Júnior, que nos últimos seis anos controlou a holding Bahiapar Participações e Investimentos, é o mais novo senador da República, apesar de sua ojeriza à política. ACM volta a Salvador de olho nos dois impérios que restaram. O primeiro, o controle do governo estadual e da Prefeitura, está garantido até as próximas eleições. O segundo, o empresarial, oscila entre a prosperidade ímpar ? em dois anos, de 1997 para 1999, o faturamento do grupo saltou 40% ? e a ameaça de implosão. Sua galinha dos ovos de ouro, a TV Bahia, convive com boatos de que a Rede Globo, à qual é afiliada, teria planos de montar a própria retransmissora. Dos R$ 185 milhões faturados pelo grupo em 1999, 72% vieram das seis repetidoras da emissora carioca. Para a oposição a ACM, seu sucesso empresarial decorre exclusivamente da influência política que ele exerceu nos últimos anos. Se isso for verdade, a Rede Bahia, ou Bahiapar, enfrentará tempos difíceis.

Um terço das ações pertence aos filhos de Luís Eduardo. Outro terço está com Cesar Mata Pires, principal acionista da construtora OAS e genro de ACM. O restante fica com o senador Júnior, marcado pela obediência irrestrita ao pai. Galgado à presidência do grupo após trabalhar no extinto Banco Econômico, ele distribuiu os cargos entre executivos discretos e dispostos a manter a Rede Bahia como base para a projeção política dos Magalhães. Em seu lugar, assume Rodolfo Tourinho, um primo homônimo do ex-ministro das Minas e Energia. ACM, embora chefe de todos, não tem o cacoete empresarial. Aposta nos descendentes para manter o círculo de poder.

ACM Neto, por exemplo, de 22 anos, quer ser deputado federal. Um dos tentáculos da Bahiapar, a Icontent, atua no setor de entretenimento promovendo megaeventos. No outro eixo, do público para o privado, verbas do Estado e do município voltam para o clã na forma de verbas publicitárias. O inexpressivo Correio da Bahia recebeu em 1999 nada menos que 98% da cota estadual. A TV Bahia, em cinco meses de 2000, ficou com R$ 1,3 milhão de anúncios do governo, de um total de R$ 1,8 milhão. As verbas da Prefeitura de Salvador seguem a mesma lógica, investigada pela Procuradoria Federal do Direito do Cidadão na Bahia.

Exatamente a TV Bahia aglutina especulações sobre um suposto projeto da Globo de rescindir o contrato com a afiliada. A nova retransmissora em Salvador seria viabilizada com a compra da TV Aratu, do deputado federal Nilo Coelho. O diretor de Comunicação da Globo, Luiz Erlanger, nega essa possibilidade. E nega que a TV Bahia tenha sido advertida por não transmitir um dos protestos de rua contra ACM, em maio, quando a emissora teve de comprar imagens feitas por um sindicato. ?Ela não descumpriu normas da Globo e não foi advertida. A TV Bahia é uma de nossas melhores afiliadas, é padrão?, enfatiza. Mas o fato é que o contrato com as 113 afiliadas, de um ano para cá, passou a ser renovado de apenas três em três meses: vigilância mais direta da Globo sobre os que usam seu nome.

No Recôncavo, ACM continuará de olho em Brasília, disposto a dar o troco. ACM Junior, no Planalto, ficará plugado em Salvador. Primeiro, para cumprir as ordens políticas do pai, que já fala dos votos e outras providências ?do Júnior?. Segundo, para conferir o dia-a-dia do grupo, que ganhou músculos após a passagem de ACM pelo Ministério das Comunicações, no governo Sarney, quando a Bahiapar conquistou os direitos de retransmissão da Globo. Ficou famosa a artimanha de ACM anterior à compra: como ministro, suspendeu pagamentos à empresa Nec Corporation do Japão, pilotada no Brasil por Mário Garnero, levando-o à insolvência. Quem comprou a Nec do Brasil? A Globo, que rompeu um contrato de 20 anos com a TV Aratu, em prol da empresa dos Magalhães. ?A Rede Bahia tem um vício de origem, nasceu de um negócio espúrio?, diz Emiliano José, professor da Universidade Federal da Bahia. Para quem acompanha de perto o cenário baiano, as atividades empresariais da Bahiapar ainda não estão em risco ? no curto prazo. Isso porque a influência do ex-senador no governo estadual e na Prefeitura de Salvador continua a mesma. O que muitos empresários ligados ao carlismo questionam é a viabilidade do grupo a médio e longo prazo. Seja por um eventual divórcio com a Globo, seja pela possibilidade de diminuição do poder no Estado.