01/02/2010 - 2:04

Salão da Bovespa: bolsa garante a evolução dos papéis aos doadores
Uma operação pouco difundida no Brasil está crescendo a olhos vistos. É o empréstimo de ações, também chamado de aluguel. Em dezembro de 2009, essa prática movimentou R$ 27,8 bilhões, mais que o dobro do registrado no mesmo mês do ano anterior (veja gráfico). Em 12 meses, a operação envolveu ativos de R$ 259 bilhões no Banco de Títulos ? BTC, serviço criado pela Bovespa para este fim. Como o empréstimo de ações é realizado a uma taxa média de 2% ao ano, pode-se imaginar que os investidores que o fizeram embolsaram um ganho de R$ 5,2 bilhões no total ? uma bela cereja no bolo de quem ganhou com a alta de 83% do Ibovespa no ano passado. Mas como funciona?
É simples. Um investidor de longo prazo, que aposta na alta das cotações e não pretende vender os papéis tão cedo, aluga-os para um especulador, em troca de uma remuneração fixa. O especulador, por sua vez, aposta na queda das ações e as vende imediatamente, na esperança de recomprá-las mais barato depois para devolvê-las ao dono, com lucro. É a venda a descoberto, que nos Estados Unidos chama-se short selling e fez do gestor americano John Paulson um dos homens mais ricos do mundo em 2009 (ele vendeu ações de bancos que despencaram com a crise). Para o investidor que aluga (o doador), é um bom negócio. O risco é perder a oportunidade de vender as ações no topo da alta, durante o período em que estiverem presas ao contrato de empréstimo.
Por isso, a operação só é recomendada para quem pretende sentar-se sobre os papéis por longos períodos. Já o especulador (ou tomador) pode perder muito dinheiro se a estratégia der errado e as cotações subirem. Nesse caso, ele é obrigado a recomprá-las mais caro antes de devolvê-las ao dono. A bolsa exige folgadas garantias dos tomadores e assegura a devolução dos papéis no prazo (geralmente, 30 dias). ?A BM&FBovespa é a contraparte central garantidora?, lembra Luiz Vicente, diretor da instituição.
As taxas são combinadas entre as partes. Em geral, quanto mais liquidez tiver uma ação, menor é sua taxa de aluguel. Na semana passada, os papéis da Petrobras podiam ser alugados por 0,5% ao ano na corretora Ágora, do Rio de Janeiro. Os do Itaú Unibanco obtinham 0,75% ao ano e os do Santander, 5% ao ano. Com menos liquidez, as ações da MMX eram alugadas a 19% ao ano. ?Quanto maior for a volatilidade de um papel, maior é o risco para o doador e, portanto, maior é a taxa?, explica Hélio Pio, gerente comercial da Ágora. Nos últimos tempos, o consultor financeiro Fabiano Calil tem sugerido essa operação para famílias em processo de partilha de herança. ?Os inventários são lentos. Enquanto isso, as ações podem ser alugadas?, diz ele.