No dia 20, a Apple confirmou o que já era sussurrado pelos corredores do Apple Park: John Ternus, o discreto e longevo chefe de hardware da gigante tecnológica, assumirá o posto de presidente-executivo a partir de 1º de setembro.

A nomeação encerra a era de Tim Cook, o administrador que transformou o legado criativo de Steve Jobs em uma fortaleza financeira de US$ 3,6 trilhões, mas que agora entrega as chaves em Cupertino, na Califórnia. O fim do ciclo ocorre em um mundo dominado pela inteligência artificial (IA) e no qual a Siri, assistente da Apple, ainda precisa ganhar vida no universo da IA generativa. É um terreno hoje dominado por ChatGPT, da OpenAI, e o Claude, da Anthropic — e onde o Gemini, do Google, também caminha.

Se esses agentes, mesmo avançados, já passam por uma nova evolução, a que leva à chamada IA agêntica — dominada por sistemas que vão além da resposta a prompts e se tornam proativos, autônomos e focados em objetivos —, as veteranas Siri e Alexa, da Amazon, que nasceram em uma geração anterior à da IA generativa, precisam correr contra o tempo.

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É neste ponto que John Ternus alcança a alta liderança na Apple.

Quem é John Ternus

Ele não é um estranho ao ecossistema. Ingressou na companhia em 2001, o ano em que o primeiro iPod mudou a relação da humanidade com a música.

Ao longo de duas décadas, Ternus, avesso aos holofotes, mesclou-se à imagem da própria Apple: eficiente e tecnicamente impecável. Ele foi o arquiteto por trás da revitalização do Mac — que, sob sua batuta, recuperou o fôlego diante dos PCs — e foi decisivo na maturação de produtos como o iPad e os AirPods.

Se Cook era o homem da cadeia de suprimentos e da logística global, Ternus é quem domina a transformação de materiais brutos em tecnologia de alta precisão. Entre os projetos mais recentes do executivo e sua equipe contam as redefinições feitas em 2025 para o iPhone, vistas no iPhone 17 Pro e Pro Max e no superfino e durável iPhone Air.

“Ele é um visionário cujas contribuições para a Apple ao longo de 25 anos já são inúmeras e, sem dúvida, é a pessoa certa para liderar a Apple rumo ao futuro”, declarou Tim Cook.

O hardware, contudo, por mais reluzente que seja, já não é o único campo de batalha. Ternus assume o comando em um momento de inflexão histórica. Pela primeira vez em uma década, a Apple sentiu o peso de não ditar o ritmo da próxima grande revolução.

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John Ternus ao lado de Tim Cook. Foto: Divulgação (Crédito:Divulgação/Apple)

IA de software para hardware

A coroa de empresa mais valiosa do mundo foi momentaneamente cedida à Nvidia, a gigante dos chips de inteligência artificial, sinalizando que o mercado está menos interessado na forma do dispositivo e mais na potência da inteligência que ele abriga.

O retrato não elimina a leitura de que um dos desafios de Ternus é transformar IA de software para hardware. Para isso, há prova de fogo.

O sucesso da Apple sempre foi erguido sobre as fundações do controle absoluto. É o conceito do “jardim cercado”: chips personalizados, sistemas operacionais proprietários e uma curadoria rigorosa de aplicativos que garantem ao usuário uma experiência de segurança e simplicidade sem paralelos.

Essa fórmula gerou quase US$ 210 bilhões em receita apenas com iPhones no último ano. Mas a IA generativa, a força que hoje reorganiza o Vale do Silício, prospera em solo oposto. Ela exige abertura, experimentação rápida e uma fluidez que desafia a disciplina quase monástica da Apple.

Enquanto rivais como Google, Meta e OpenAI lançavam modelos de linguagem que evoluem semanalmente diante dos olhos do público, a Apple manteve-se cautelosa. Tim Cook, o herdeiro leal da visão de Steve Jobs, priorizou a privacidade e o polimento final sobre a velocidade. Mas o custo dessa cautela foi a percepção de que a Siri, apresentada ao mundo em 2011 como uma pioneira, estagnou. Ela ainda não se tornou o agente — ou seja, o assistente capaz de executar tarefas complexas de forma autônoma — que o mercado agora exige.

Transição em setembro

A transição na gigante tecnológica será feita suavemente. Ternus assumirá o novo cargo em 1º de setembro próximo, e Cook permanecerá como chairman, garantindo que a transição de poder não abale a confiança dos investidores.

Mas, a partir de setembro, o peso das decisões recairá sobre Ternus. Ele herdará um negócio bilionário, mas também a pressão antitruste nos Estados Unidos e na União Europeia, que tentam derrubar as cercas do jardim da Apple.

O sucesso de Ternus não será medido apenas pelo próximo design do iPad ou pela leveza de um MacBook, mas pela capacidade de transformar o iPhone em um centro de inteligência ativa e proprietária.

Se ele conseguir fazer com que a IA da Apple seja tão elegante e confiável quanto o hardware que ele passou vinte anos construindo, a coroa das big techs voltará para Cupertino. Se não, Ternus será lembrado como o homem que poliu a engrenagem enquanto o mundo mudava de motor.