15/10/2003 - 7:00
É uma proposta no mínimo ousada. Duas semanas depois de o grupo Pão de Açúcar determinar o fechamento da loja Extra no paulistaníssimo prédio do Mappin, uma família de comerciantes libaneses anuncia o lançamento de um shopping center perto dali, no miolo do centro velho de São Paulo. Mais especificamente na Ladeira Porto Geral, espécie de apêndice de um só quarteirão da Rua 25 de Março ? a via de comércio popular mais movimentada da América Latina, com giro anual da ordem de R$ 10 bilhões. O ponto escolhido abrigou o guichê de apostas do Jockey Club em tempos mais glamourosos e, mais recentemente, funcionou como restaurante dos funcionários do Banespa. Agora, os comerciantes ali reunidos investem no comércio popular, apostando na recuperação do poder de consumo das classes C e D. Com inauguração marcada para o próximo dia 30, o Shopping Porto Geral nasce como bastião da comunidade sírio-libanesa que trabalha na região há um século e hoje vê seu espaço ocupado por imigrantes coreanos e chineses.
Tanto os empreendedores como boa parte dos lojistas do shopping são comerciantes árabes que têm lojinhas no centro há décadas e agora decidiram unir forças em uma ?lojona? de 4 mil metros quadrados. Renato Khouri, o administrador do shopping, vai inaugurar o espaço com 100 lojas, que podem chegar a 170 se todos os boxes forem ocupados. Aos 28 anos, o representante da primeira geração brasileira da família Khouri cresceu atrás de balcões de lojas da Rua 25 de Março. Hoje, sua área de atuação são os três pisos no subsolo do prédio do Jockey alugados para o shopping. O foco do Porto Geral são lojas pequenas, de tudo o que há na região: bijuterias, artesanato, armarinho e presentes. Com os mesmos preços, mas sem aperto nem desconforto.
A administração do Porto Geral está a cargo de Renato, mas os R$ 3 milhões investidos saem do bolso de seu pai, Khalil El Khouri, um libanês que vive no Brasil desde os cinco anos. Khalil montou sua primeira loja na 25 de Março no final dos anos 60. Teve também casas de artigos de couro, calçados, equipamento esportivo e armazéns atacadistas. A idéia de investir em um empreendimento que fosse além das galerias de lojas que existem há décadas no centro de São Paulo virou projeto quando o Jockey decidiu alugar o subsolo de seu prédio. A família entrou na disputa pelo imóvel e assinou contrato de aluguel por 8 anos no final de 2002.
Berço do comércio em São Paulo, o Porto Geral que dá nome à ladeira era o ponto de desova das mercadorias que chegavam do Porto de Santos por via fluvial. Do lado de baixo está a 25 de Março. No alto, a Rua Boavista, primeira sede da maioria dos bancos paulistas, que ainda reúne grande número de executivos financeiros. Com o ?shopping dos árabes?, a família Khouri quer erguer uma ponte entre esses dois mundos.