São Paulo, 6 – A área plantada de soja no Brasil deve voltar a crescer na safra 2026/27, mas em ritmo marginal diante de margens apertadas, fertilizantes caros e risco climático elevado. A avaliação é da responsável pela precificação de grãos do Brasil na Argus, Nathalia Giannetti, que citou a primeira projeção do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) para Mato Grosso, com avanço inferior a 0,3%, como sinal de uma tendência que pode se repetir no País. A análise foi apresentada nesta quarta-feira, 6, em evento da consultoria em São Paulo.

Segundo Giannetti, a demanda crescente por soja, pela China e para processamento interno ligado ao biodiesel, continua incentivando o produtor a ampliar a área cultivada. O avanço, porém, tende a ser menor que em ciclos anteriores. “A Argus ainda não trabalha com números concretos mas, com base no sentimento do mercado, vemos uma tendência de novamente haver crescimento de área, apesar de todas essas incertezas”, afirmou.

Ela disse que as margens do produtor estão apertadas porque os preços da soja são pressionados pelo excesso de oferta, enquanto os fertilizantes permanecem em níveis elevados. O problema é mais sensível para a oleaginosa porque o cultivo depende principalmente de adubos fosfatados, cujos fornecedores enfrentam dificuldades simultâneas: problemas logísticos na Arábia Saudita, queda de produção no Marrocos, suspensão das exportações pela China e disparada do preço do enxofre, matéria-prima exportada em grande parte pelo Oriente Médio e essencial na fabricação desse tipo de insumo. “As notícias não são muito boas. Primeiro, porque as margens do produtor estão bastante apertadas”, disse.

A alta dos fertilizantes piorou a relação de troca no Brasil, indicador que mede quantas sacas de soja o produtor precisa comprometer para adquirir 1 tonelada de adubo. De acordo com a Argus, que acompanha o indicador há quase seis anos, o índice está nos níveis mais desfavoráveis ao produtor desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022.

Esse quadro tem travado as negociações de insumos. Até o fim de abril, os produtores haviam comprado menos de 50% do volume planejado de fertilizantes para a safra 2026/27, ante cerca de 60% no mesmo período do ano passado. O atraso preocupa porque o produto ainda precisa chegar aos portos brasileiros e ser transportado até as fazendas. Com o avanço do outono e a perspectiva de mais chuvas no Sul, o descarregamento portuário também pode enfrentar dificuldades. Segundo Giannetti, o mercado já discute redução média de 15% nas entregas ao Brasil neste ano, sobretudo em produtos fosfatados.

O clima é outro ponto de atenção. Giannetti citou dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), segundo os quais há mais de 90% de chance de El Niño ativo na segunda metade do ano, justamente durante o plantio da soja no Brasil. O fenômeno costuma reduzir precipitações no Centro-Oeste e aumentar as chuvas no Sul, as duas principais regiões produtoras do País.

O risco é maior para Mato Grosso, que sozinho responde por cerca de 30% da produção brasileira de soja. “É muito provável que a gente veja uma redução das produtividades em Mato Grosso caso esse El Niño tenha força”, afirmou. Giannetti ponderou que as projeções climáticas ainda podem mudar e que outros fenômenos também influenciam o regime de chuvas, mas disse que, com base apenas no El Niño, há risco relevante de perdas.