Alvos permanentes de disputas políticas, as estatais brasileiras ganharam uma musculatura adicional no momento em que o presidente Lula decidirá quem seguirá ? ou não ? no comando das empresas. Na semana passada, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, carimbou sua permanência ao anunciar um lucro líquido de R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre. No acumulado do ano, a cifra chega a R$ 20,7 bilhões, o que garantiu o melhor desempenho da história. Ao mesmo tempo, Rossano Maranhão anunciou que o Banco do Brasil registrou R$ 4,8 bilhões de lucro líquido no mesmo período, batendo os maiores bancos privados do País ? o Bradesco acumulou um ganho de R$ 3,3 bilhões e o Itaú, de R$ 3 bilhões. Fechando a tríade, Demian Fiocca, o mais novo presidente a passar pelo BNDES, exibiu uma bela conta em sua estréia. Até setembro, o banco de fomento teve um lucro de R$ 5,7 bilhões ? 132% maior do que em 2005.

No papel, é fácil justificar o que está por trás de números tão vultuosos. Para a Petrobras, o crescimento no lucro foi resultado do aumento na produção de petróleo, do reajuste dos preços médios dos produtos vendidos e da maior utilização da capacidade instalada das refinarias. Mas há uma questão: por que uma empresa que lucra R$ 20 bilhões em menos de um ano não repassa à população parte do ganho? Analistas apontam que o preço da gasolina no Brasil está 10% superior à média do mercado internacional. ?A população é beneficiada com uma empresa sadia?, desconversa Almir Barbassa, diretor-financeiro da Petrobras. Seja como for, os bons resultados devem confirmar a presença de Gabrielli no comando, a despeito do apetite de alguns partidos aliados, como o PMDB, que aventaram a possibilidade de assumir a Petrobras.

O caso do BNDES é também ilustrativo. Fiocca aponta que a maior parte do lucro veio das operações de renda variável, com a valorização das empresas nas quais o banco tem ações. No entanto, o volume de dinheiro repassado à iniciativa privada não tem alcançado as metas nos últimos anos. Para chegar ao valor de R$ 55 bilhões, programado para 2006, o banco teria de emprestar R$ 9,8 bilhões em novembro e o mesmo valor em dezembro. Mas os desembolsos mensais foram de R$ 3,6 bilhões, em média, neste ano. Ainda assim, Fiocca tem lugar assegurado no próximo governo. Não necessariamente à frente do BNDES. Luiz Fernando Furlan, ministro do Desenvolvimento, fica se puder indicar o presidente do banco. Outra opção, o empresário Jorge Gerdau, também deu sinais semelhantes. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, porém, pretende lutar para manter seu pupilo à frente do BNDES. E um lucro tão vigoroso é uma boa credencial.

Quem vive hoje uma situação confortável é Rossano Maranhão. Funcionário de carreira do Banco do Brasil, o presidente da estatal conseguiu imprimir uma gestão técnica em seu mandato e seguiu à risca os pedidos de Lula. Ao garantir um lucro recorde ao banco, não esqueceu de distribuir os dividendos. A carteira de crédito chegou a R$ 118 bilhões em setembro, consolidando a participação de 17,3% da instituição no mercado. O mercado acabou validando o resultado. Na quinta-feira 16, as ações do banco acumulavam uma alta no ano de 44,16%, enquanto as do Bradesco chegavam a 24,7% e as do Itaú, 32,8%. ?Não foi só o mercado que gostou?, disse Maranhão à DINHEIRO. ?A população também está aplaudindo.? Maranhão também tem a aprovação de Lula. Ele se aproximou do presidente nos últimos meses, ao apresentar propostas para redução das taxas de juros e de maior acesso a crédito. Não se sabe, porém, se o possível apelo de Lula para ficar será tão tentador como os dois convites que Maranhão recebeu de instituições privadas. Caso decida seguir à frente do BB, Rossano pode disputar o cargo com dois nomes. Um deles é Adézio Lima, vice-presidente de crédito do banco e filiado ao PT. O outro seria o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento. Rossano, porém, é favorito.