O desfecho do seqüestro do publicitário Washington Olivetto, no último fim de semana, trouxe duas surpresas. A primeira, com a prisão da quadrilha liderada pelo chileno Mauricio Hernández Norambuena, foi a descoberta de que movimentos revolucionários de esquerda, típicos dos anos 60, continuam atuando no Brasil. A segunda consiste na percepção da alta capacidade de financiamento de grupos como o de Norambuena. Só para preparar o crime contra Olivetto, os integrantes da Frente Patriótica Manuel Rodriguez gastaram R$ 100 mil, quase sempre pagando em cash. O ?retorno? esperado, no caso o valor do resgate, seria de US$ 10 milhões: 9.900% em alguns meses. Além de manter uma rede de imóveis em várias cidades do Estado de São Paulo, a quadrilha tinha verba disponível para efetuar pagamentos à vista sempre que necessário. O chileno Alfredo Canales Moreno, por exemplo, que agora acompanha o líder na penitenciária de segurança máxima de Taubaté, deixou R$ 2,5 mil em dinheiro para se hospedar em um flat. Ainda que o comando e a organização sejam originários das antigas ações revolucionárias, o fator ideológico hoje apenas serve para mascarar as reais intenções dos bandidos. ?São criminosos comuns, que perderam a causa mas mantiveram a estrutura militarizada?, diz o professor Hector Luis Saint Pierre, da Unicamp, especialista em guerrilhas latino-americanas. Com o fim da Guerra Fria, da União Soviética e a queda do muro de Berlim, homens e mulheres treinados militarmente teriam mudado a destinação do dinheiro amealhado. O que antes era dirigido a organizações de esquerda hoje cai no próprio bolso dos participantes dos crimes.

Excluídos da política institucionalizada, muitos grupos
revolucionários financiam-se com recursos de seus crimes anteriores ou por meio de relações incestuosas com o narcotráfico, um negócio que movimenta US$ 400 bilhões por ano no mundo. O modo como criminosos obtêm seus recursos varia. Seqüestros e assaltos a bancos vêm desde os anos 60. Em 1995, em Los Angeles, um assalto a um carro-forte da empresa Iansa rendeu US$ 45 milhões ao grupo de Norambuena. O dinheiro do tráfico de drogas é outra vertente. Na hipótese de o seqüestro de Olivetto ter sido crime político, desconfia-se de vínculo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A guerrilha que controla metade do território colombiano é financiada pelo tráfico de drogas e tem planos de expansão pelo continente. O sociólogo argentino Carlos Escude propala até uma teoria conspiratória. Ele enxerga conexões entre as Farc e a KGB, o órgão de espionagem russo, que, depois do colapso soviético, teria se transformado simplesmente em uma máfia, centrada no tráfico de drogas.

Segundo seus opositores, as Farc obtêm dinheiro cobrando ?pedágio? de camponeses, roubando gado e mantendo a maior indústria de seqüestros do mundo. A guerrilha, composta por cerca de 13 mil homens, ainda tem força política grande, a ponto de negociar com o governo colombiano ou participar de debates sobre alternativas econômicas à plantação de folhas de coca e papoula. E ainda mantém alguma promiscuidade com governos corruptos. O caso mais clássico é o do Peru. Wladimiro Montesinos, ex-assessor do presidente Alberto Fujimori, vendia armas peruanas para as Farc, que por sua vez as forneciam para as guerrilhas que Fujimori dizia combater, como o Sendero Luminoso e o Tupac Amaru. Hoje, investiga-se o patrocínio das Farc no reerguimento desses e outros grupos. A bandeira ideológica virou pretexto para qualquer atrocidade: até mesmo o megatraficante Fernandinho Beira-Mar, que já foi protegido pelas Farc, quando esteve refugiado na selva colombiana, autodefine-se como um ?homem de esquerda?.