08/12/2000 - 8:00
Conquistar os 6 mil principais pontos de venda de refrigerantes do Brasil, garantir cinco fábricas no estado de São Paulo e ter uma frota de 1,6 mil caminhões equipados com modernos terminais de emissão de notas fiscais. Essa estratégia, estabelecida em 1994, fazia parte do projeto secreto do grupo argentino Buenos Aires Embotelladora S/A (Baesa) de fazer a Pepsi-Cola cair definitivamente no paladar brasileiro. Com uma baixíssima penetração de 6% no mercado nacional, a família de refrigerantes da Pepsi vinha levando há anos uma lavada da Coca-Cola, que dominava cerca de 50% das vendas. Várias tentativas de levantar a marca foram feitas nas últimas décadas. Em vão. A Baesa, no entanto, estava disposta a mudar radicalmente a situação: havia conquistado o direito exclusivo de franqueada dos produtos da norte-americana PepsiCo no País e queria nada menos que 30% do mercado em poucos anos. Tinha uma munição de US$ 500 milhões para investir. Charles Beach, dono da Baesa, acompanhava atentamente cada passo de um plano tão ambicioso. O que ele desconhecia, porém, é que a Coca-Cola sabia de sua estratégia antes mesmo do início da batalha. A DINHEIRO teve acesso a documentos obtidos pela Coca-Cola e que detalham as informações sobre a operação Baesa.
Esse intrincado caso de espionagem empresarial chegou à Secretaria de Direito Econômico (SDE), na noite de 30 de novembro. Neste dia, o vice-presidente jurídico da PepsiCo, José Talarico, entrou no edifício do Ministério da Justiça, em Brasília, com uma representação mostrando indícios de que a Coca cometeu crime contra o mercado de refrigerantes. Durante uma hora, o secretário Paulo de Tarso Ribeiro ouviu os detalhes da história e logo depois determinou o início de levantamentos para decidir se abre ou não processo administrativo contra a Coca-Cola por crime de concentração de negócios (truste), já que a SDE não trata de problemas criminais. Em uma segunda fase, porém, a Coca pode mesmo ser processada pela Pepsi por espionagem industrial. ?As acusações levantadas contra a Coca são muito sérias?, ressalta Talarico.
A história do vazamento de informações confidenciais e estratégicas da Baesa começou em dezembro de 1994, depois que a Spal, engarrafadora da Coca-Cola em São Paulo, recebeu quatro fitas das mãos de um técnico de som, segundo versão da própria multinacional. Elas continham gravações de conversas realizadas durante reunião entre diretores e gerentes da Baesa para definir seu projeto de reconquista do rentável mercado de refrigerantes, avaliado atualmente em US$ 5 bilhões. As fitas foram levadas depois à sede paulista da Coca, onde um resumo do conteúdo foi transcrito pelo gerente de operações Antônio Cesar Santos de Azambuja. Ele garante ter feito o serviço a pedido de seus superiores.
Azambuja escreveu, com o próprio punho, sete páginas sobre as diretrizes que a Baesa adotaria para recuperar o mercado para a Pepsi, com detalhes como a instalação de 10 mil geladeiras em bares. Os resumos das gravações, aos quais a DINHEIRO teve acesso, estão em cartório no Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, no Rio de Janeiro. O trabalho realizado por Azambuja é mais um capítulo da disputa travada entre a Coca e a Pepsi desde 1898, quando a última lançou um refrigerante muito semelhante ao da concorrente. Só que a matriz da PepsiCo, em Purchase, no estado de Nova York, que acompanha atentamente o desenrolar do caso, o considera inédito. Antes os problemas da PepsiCo com a Coca eram de práticas de monopólio e vendas casadas, declarou à DINHEIRO o assessor Charles Nicolas. Agora, lembra ele, a situação é muito diferente. Ou seja, espionagem mesmo.
Prejudicada ou não pelas informações que a Coca-Cola tinha em mãos, a Baesa viu em menos de um ano seu projeto ir para o espaço. Depois de avançar brevemente para um patamar de 8% das vendas, sua participação despencou para 4%. Fechou as portas no Brasil seis meses depois do início das atividades e vendeu a franquia para a Brahma, hoje marca da Ambev, por apenas US$ 150 milhões. A Coca-Cola do Brasil admite abertamente que um funcionário seu recebeu fitas sobre os planos da Baesa, mas nega qualquer envolvimento de sua diretoria. ?Azambuja recebeu as fitas e fez as transcrições por livre e espontânea vontade. Foi depois fortemente repreendido por seus superiores?, afirma a diretora de comunicações, Marilena Lopes. Ela garante que o então diretor-jurídico da empresa, Júlio Fleischman, e o diretor geral de operações, Oscar Valda, ?nunca tiveram conhecimento do conteúdo das fitas?. A advogada de Azambuja, Alexandra Missagia, acha patética a posição da Coca.
O pontapé inicial para que o escândalo todo viesse a público foi dado pelo próprio Azambuja, que entrou com processo no Tribunal Regional do Trabalho do Rio ao ser demitido sem motivo aparente em 1997, depois de 22 anos de trabalho na multinacional. A fim de receber uma indenização de cerca de R$ 1 milhão, Azambuja declarou à Justiça não ter recebido a quantia a que tinha direito ao sair da companhia, além de ter sido obrigado a realizar trabalhos ilegais. Antes da decupagem das fitas, pregou uma peça em 1987 contra um funcionário da PepsiCo, que queria obter informações do concorrente. Declara ter entregue dados falsos por ordem dos chefes, a fim de criar um flagrante. Curiosamente, ele não foi usado pela Coca na Justiça.
Atualmente, Azambuja permanece calado sobre todo o assunto. ?Ele vai depor no dia 12 e qualquer declaração pode ferir a ética dos tribunais?, alega sua advogada. A Coca, por sua vez, afirma que Azambuja não se conforma com sua demissão e que até enviou recentemente uma carta ao presidente mundial da companhia, Doug Daft, onde solicitava sua reintegração. As duas partes podem até mesmo entrar em um acordo para abafar a situação, o que levaria Azambuja a desistir do processo. Essa seria uma das preocupações da SDE, que quer definir logo qual será seu procedimento antes que perca as provas da escuta. Na avaliação do advogado Cid Vieira de Souza, especialista em crimes do colarinho branco, a Coca-Cola pode efetivamente ser processada por co-autoria de espionagem se as informações foram obtidas por um dos seus funcionários. Caso as gravações tenham sido entregues por terceiros, a culpa é menor, mas ainda assim é possível que a companhia seja acusada de co-responsabilidade. De qualquer maneira, a última palavra sobre o caso será do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), para onde os processos da SDE seguem. O julgamento final pode levar um ano.