05/10/2001 - 7:00
A hora chegou. A Argentina vive seu momento de definição. Na segunda-feira 8, a cinco dias das eleições legislativas, o presidente Fernando De la Rúa desembarcou em Brasília para uma visita de surpresa a seu colega Fernando Henrique Cardoso. Ficou cinco horas no Palácio da Alvorada e negociou um pacote de concessões comerciais. Agora, a Argentina poderá aplicar cotas e sobretaxas nas importações de produtos brasileiros que tenham sido favorecidos pela desvalorização do real. Depois das eleições, marcadas para este domingo 14, quando todo o Senado e metade da Câmara serão renovados, De la Rúa vai anunciar reduções de impostos e a criação de um subsídio para os desempregados, no valor de US$ 150, para tentar reanimar a economia argentina. O governo também passou a emitir uma moeda paralela, as Lecop ? Letras de Pagamento de Obrigações Provinciais ? que se somam aos patacones, em circulação na província de Buenos Aires. Ambas flutuam em relação ao dólar e servem para pagamentos de impostos e para compras dentro do país. É um esforço heróico para evitar o que muitos temem na Argentina.
?Não haverá desvalorização nem dolarização?, garantiu De la Rúa
em entrevista exclusiva à DINHEIRO. ?E Cavallo é muito importante para o governo.?
Na prática, as concessões comerciais obtidas por De la Rúa no Brasil, durante as reuniões de sua equipe com Pedro Malan, Armínio Fraga e vários técnicos do governo, terão efeito restrito. Estudo da própria embaixada argentina em Brasília mostra que as salvaguardas só afetarão as indústrias de calçados e produtos têxteis. Além disso, nos primeiros nove meses do ano, a Argentina teve um superávit de US$ 843 milhões no comércio entre os dois países. A recessão argentina tem funcionado como maior barreira às exportações brasileiras. E mais: num jogo em que as expectativas contam bastante, poucos acreditam que a viagem de emergência teve seu verdadeiro motivo revelado. ?Não me surpreenderia em saber que eles vieram para comunicar mudanças na política econômica a serem feitas depois das eleições?, disse Roberto Teixeira da Costa, vice-presidente do conselho da Sul América.
Faz sentido. Na segunda 8, DINHEIRO apurou que os argentinos chegaram a sinalizar a disposição de mexer no câmbio para as relações com o Mercosul. Os brasileiros cortaram o assunto, predispostos de antemão a não entrar em discussões mais sérias às vésperas de eleições. Não foi posta à mesa, assim, uma das alternativas estudadas pelo chanceler Adalberto Giavarini. Técnicos ligados a ele estão tentados a experimentar o modelo de ?serpente cambial?, com taxas de câmbio múltiplas para cada setor da economia.
Corte de impostos. Com adversários no próprio governo, Cavallo, que passou grande parte das reuniões cabisbaixo, é o alvo da temporada eleitoral. Para todos os candidatos, ele personifica a recessão. O ex-presidente Raúl Alfonsin, peça chave da sustentação política a De la Rúa, dispara recados nítidos. ?Depois das eleições, só haverá lugar para ministros progressistas.? Para mostrar que não está imobilizado, Cavallo anunciou a devolução de parte do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) para compras em cartão de crédito. Ele precisa estimular o consumo. Em setembro, 257 empresas quebraram em Buenos Aires e a arrecadação com o IVA caiu 31,4%.
Para onde se olhe se vê recessão. ?Estamos trabalhando apenas alguns dias por mês?, diz Cristiano Rattazzi, presidente da Fiat Auto da Argentina. Hoje, o mercado local que chegou a absorver 45 mil carros por mês, compra apenas 12 mil. Lá, a indústria opera com 65% de ociosidade. O caos social é tão grande que uma medida a ser anunciada é um subsídio mensal de US$ 150,00 aos desempregados na forma de um ?cartão social?.
No mercado financeiro, o castigo é igualmente intenso. Na terça-feira 9, a agência de classificação de risco Standard & Poors rebaixou mais uma vez os papéis da dívida argentina, colocados no terreno da moratória. O país é, hoje, por esses critérios, só inferior em risco à Nigéria. Os bancos privados e até o Fundo Monetário Internacional antevêem o calote. ?Não se discute mais se haverá ou não a moratória da dívida interna?, diz Luiz Rabi, economista do Bicbanco. ?A questão é saber se ela vem com desvalorização
ou com uma dolarização.?
A insegurança está nas ruas. ?As pessoas voltaram a sacar mais dinheiro dos bancos?, revela Juan Carlos Masjoan, presidente da Telecom Argentina. Para o economista José Márcio Camargo, consultor da Tendências, a Argentina de hoje é o México de 1982, quando o país foi o primeiro a decretar a moratória da dívida externa e gerou pânico financeiro em toda a América Latina. ?O que ninguém sabe é se desta vez será possível controlar a explosão.?
NEM DESVALORIZAÇÃO, NEM DOLARIZAÇÃO
O presidente da Argentina, Fernando De la Rúa, realizou um esforço pessoal para desmanchar boatos. À DINHEIRO, rechaçou a dolarização no país e ironizou as agências de classificação de risco que derrubam o rating da Argentina. ?Precisamos criar uma agência na América Latina?, brincou.
DINHEIRO ? A Argentina vai dolarizar
sua economia?
Fernando De la Rúa ? Não vamos nem desvalorizar o peso,
nem dolarizar a economia. Nossas contas externas estão em
dia, os pagamentos estão planejados e temos condições de prosseguir assim.
DINHEIRO ? O sr. tratou aqui da adoção de uma moeda comum para o Mercosul?
De la Rúa ? Este é um objetivo a ser alcançado no longo prazo, que requer uma série de convergências nas políticas macroeconômicas dos dois países. Não se trata de algo que faça parte das nossas preocupações neste momento. Tudo o que viemos fazer foi fortalecer a unidade do Mercosul.
DINHEIRO ? Qual é o resultado concreto dessa última conversa?
De la Rúa ? O cenário internacional mudou muito diante dos ataques terroristas aos EUA e, agora, com a guerra.
Quanto mais unidos Argentina e Brasil estiverem, melhor para nossos dois países.
DINHEIRO ? As agências internacionais de risco têm rebaixado as classificações do Brasil e da Argentina. O sr. se preocupa com essas avaliações?
De la Rúa ? Só vamos melhorar quando criarmos uma agência de risco com sede na América Latina (risos).
DINHEIRO ? O ministro Domingo Cavallo continua?
De la Rúa ? Cavallo está fazendo um grande trabalho,
prestando um excelente serviço ao país. Ele é importante para o governo. Na Economia.
DINHEIRO ? Voltar ao FMI está nos seus planos?
De la Rúa ? Não precisamos voltar ao FMI agora. Nossas contas para os próximos meses estão equilibradas. A situação da Argentina é mais saudável do que a percepção de muitos.
DINHEIRO ? O que o sr. espera das eleições parlamentares?
De la Rúa ? A Argentina fará uma grande festa democrática, numa prova de nossa estabilidade política. Todos sairemos fortalecidos.