24/12/2008 - 8:00
COMEÇOU, ÀS 12H26 DA ÚLtima segunda-feira 15, uma nova etapa na aviação brasileira. Naquele instante, com o sugestivo prefixo PR-AZL, decolou de Viracopos, na cidade de Campinas (SP), o primeiro avião da Azul, a mais nova companhia aérea do País, com destino a Salvador. Para esse vôo, o passageiro mais importante quase não embarca. David Neeleman, fundador da companhia, se atrasou para tomar o vôo da empresa que, promete, irá primar pela qualidade do serviço e pelos preços baixos. E pela pontualidade. Ao chegar em Viracopos, Neeleman atravessou correndo o saguão do aeroporto, carregando as próprias malas e entrando por uma porta lateral, direto para a pista. Nesse caminho, mal teve tempo de sorrir e falar com os executivos que acompanhavam o embarque dos primeiros passageiros. “Meu vôo de Nova York atrasou. Depois o helicóptero que estava me esperando em Guarulhos não pôde decolar por causa do tempo. Mas o pior foi que meu motorista errou a entrada do aeroporto, e acabamos indo passear no centro de Campinas”, contou Neeleman com ar divertido, já durante o vôo. O executivo, que rapidamente se tornou a cara da companhia, é norteamericano, mas nasceu em São Paulo, onde seu pai trabalhava como correspondente da United Press International (UPI). A dupla nacionalidade abriu caminho para que Neeleman montasse a Azul, uma vez que a legislação brasileira impede estrangeiros de controlarem companhias aéreas no País. A aparência de Neeleman (alto, olhos azuis e pele muito clara) não esconde suas origens americanas – assim como seu português por vezes enrolado, embora fluente. Ainda assim, o jeitão irreverente e simpático é de típica lavra brasileira e o torna mais familiar para seus novos clientes.
Neeleman, que aposta pesado em preços baixos e entretenimento,
agradece seus primeiros passageiros
Antes de Neeleman chegar a Viracopos, sua equipe já enfrentava dificuldades operacionais. O sistema de check-in travou no atendimento ao primeiro passageiro, e só voltou a funcionar vinte minutos mais tarde. Na fila, um teste para a habilidade dos atendentes: além das pessoas, bagagens incomuns, como um cachorro e uma bicicleta de competição. Aos clientes na fila, funcionários da Azul ofereciam doces – entre eles estava o presidente da companhia, Pedro Janot, que parava para conversar com os passageiros – gesto que lembrou o lendário Rolim Amaro, da TAM. À frente dos quatro balcões da Azul, ladeado por outros tantos da Trip e oito da TAM, funcionários da companhia conversavam animados, como o diretor de marketing, Gianfranco Betting, acompanhado da mulher e filhos. O vôo partiu com 98 passageiros. Pelos cálculos da DINHEIRO, pelo menos 25 deles eram funcionários e convidados da Azul. Os pagantes eram cerca de 73, o que num avião com 106 assentos, equivalia a uma taxa de ocupação de 68,8%. Neeleman foi dos últimos a embarcar, sorridente e distribuindo cumprimentos. Pôde, então, sentir o clima geral de aprovação dos passageiros em relação ao avião. Eles gostaram do espaço maior entre as poltronas e do sistema de entretenimento, que inclui filmes e programas gravados. No futuro, a idéia é oferecer tevê ao vivo, “para que as pessoas possam ver a novela das oito e o futebol”, diz Neeleman.
O surgimento da Azul também marca a primeira vez que aviões da família de E-Jets da Embraer são utilizados no País por uma companhia brasileira. As duas primeiras aeronaves que a Azul utilizará são do modelo EMB- 190, vindos da americana JetBlue, também fundada por Neeleman e uma das mais bem-sucedidas da história da aviação. A Azul já recebeu o primeiro dos 40 EMB-195 que encomendou à Embraer (além de opções para mais 36). Com esses aviões Neeleman pretende atender 25 cidades em cinco anos. Pouco antes de decolar, mais uma surpresa: Neeleman havia preparado um “batismo” para o avião, ao passar por um arco formado por jatos d’água lançados por caminhões do Corpo de Bombeiros da Infraero.
“Colocar uma companhia aérea para voar é fácil. O difícil
é ganhar dinheiro”, disse Neeleman
Decolagem autorizada. Embora tenha fundado duas outras companhias e presidido uma quarta, Neeleman não conteve a emoção e soltou, em voz baixa, uma exclamação de felicidade. Já no ar, todos os passageiros aplaudiram bastante. Tão logo o sinal de apertar os cintos se apagou, Neeleman se levantou e dirigiu-se ao interfone da cabine. “Agradeço a vocês, nossos primeiros clientes. Sou o fundador da companhia e, se tiverem alguma pergunta, ficarei feliz em responder”, disse. “Espero que gostem do seu avião, pois ele é brasileiro como nós e, certamente, hoje é o melhor avião do mundo. Temos que nos orgulhar, como brasileiros, de algo assim tão importante”, acrescentou. Antes de cumprimentar um a um os passageiros, Neeleman ainda brincou: “Só tenho uma pergunta. Alguém aqui sente falta do assento do meio? “Os E-Jets da Embraer têm apenas duas fileiras de duas poltronas, sem o assento do meio. “É o nosso bebê (o avião). Estou muito feliz”, disse pouco depois da decolagem Fernanda Curado, mulher do presidente da Embraer, Frederico Fleury Curado, que acompanhou o primeiro vôo da Azul. Ex-comissária da Rio-Sul e da própria Embraer, Fernanda estava visivelmente emocionada. Durante o vôo, Neeleman conversou com a DINHEIRO. “Colocar uma companhia para voar é fácil. O difícil é ganhar dinheiro”, afirmou. Sobre seus concorrentes, disse com um leve sorriso, que embora “o (presidente da TAM, David) Barioni e o (presidente da Gol, Constantino de Oliveira) Júnior não sejam amigos, com a concorrência, ficaram”.
A Azul começou a operar antes do cronograma inicial, no qual o primeiro vôo seria só em janeiro de 2009. As primeiras dores de cabeça vieram juntas. Neeleman apóia a intenção da Anac de ampliar a utilização do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro – hoje restrito à ponte-aérea e aos vôos regionais com aviões pequenos. Contra a proposta estão as concorrentes TAM e Gol e o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB). Para eles, a liberação do Santos Dumont prejudicaria a demanda no Aeroporto do Galeão. A Azul enfrenta problema semelhante em Belo Horizonte. Outra dificuldade é o acesso ao saturado de Aeroporto de Congonhas. Para Neeleman, seria justo que a Anac redistribuísse os slots (autorizações de pouso e decolagem) do aeroporto, beneficiando as empresas mais novas. “Os slots não são das companhias, mas do país”, disse. Ele reconhece que a medida nunca foi adotada em lugar algum no mundo. “Mas, se houvesse em outros países aeroportos com 95% de seus slots nas mãos de apenas duas empresas, certamente tirariam delas”, ponderou. A chegada de uma comissária, anotando pedidos de bebidas (água, sucos e refrigerantes) em uma prancheta, interrompe por momentos a conversa. Logo depois, outra comissária passa oferecendo salgadinhos, embalados em pacotes com a marca da Azul. “Assim é mais barato. Não temos que pagar pelas marcas das fabricantes”, explicou Neeleman. Com uma expressão mais grave, perguntou sobre a situação em Santa Catarina, que sofria novamente com enchentes. Contou que aquele mesmo avião fora usado, dias antes, para levar quatro toneladas de suprimentos doados pela congregação Mórmon – religião da qual é praticante – para ajudar os atingidos pela catástrofe. Neeleman foi missionário de sua igreja no Brasil na década de 1970. Na época, percorreu por dois anos o Nordeste, conhecendo a situação precária dos habitantes da região. Recentemente, doou US$ 1,5 milhão a um fundo da igreja Mórmon, recursos usados para financiar os estudos de mórmons brasileiros sem condições financeiras. Durante boa parte da viagem a quase 1.000 km/h e a 35 mil pés de altura, Neeleman falou sobre a igreja. Com ajuda de um relógio-calculadora dos anos 80, calculou que há cerca de quatro mil missionários mórmons no Brasil, a metade deles americanos. “Hoje são, ao todo, 27 missões no País. Há um milhão de mórmons no Brasil”, diz ele. “Quando fui missionário, eram apenas cinco”. Pouco mais tarde, após um vôo tranqüilo, o avião pousou em Salvador. Uma vez no chão, Neeleman continuou conversando com jornalistas e, ao saber que uma repórter teve problemas para comprar a passagem com o cartão corporativo, acionou sua equipe para resolver o problema. Também perguntou quais os horários de saída e de chegada. Calculando o atraso (de cerca de 15 minutos), mostrou inquietação e vontade de acelerar o processo de “virar” o avião, ou seja, de limpar e preparar o aparelho para receber os passageiros do vôo de volta. “Vamos virar esse avião em vinte minutos e tirar o atraso”, disse ele. Assim que o último passageiro deixou a aeronave, Neeleman foi à cabine conversar com os pilotos e, com a ajuda de vários executivos, começou a arrumar o avião, recolhendo o lixo e ajeitando os cintos de segurança. Até mesmo Fernanda Curado, a mulher do presidente da Embraer ajudou, relembrando seus tempos de comissária. O esforço não foi suficiente e o retorno ocorreu com 25 minutos de atraso. Neeleman ficou em Salvador para reuniões na cidade. O PR-AZL voltou a subir, rumo a Campinas, para encerrar o primeiro dia da Azul e da trajetória de David Neeleman como empresário no país em que nasceu.