Responda rápido: aplicar em fundos off shore, aqueles situados em paraísos fiscais e atrelados a diversas moedas estrangeiras, garante 100% de imunidade ao risco Brasil? Se você respondeu sim, enganou-se, pelo menos em parte. Consultores financeiros afirmam que cerca de 60% dessas aplicações que estão listadas no Brasil carregam na carteira papéis da dívida externa brasileira ou ações de empresas nacionais negociadas no exterior (ADRs). Parece até contra-senso. Mas há justificativas. Primeiro, teoricamente esse tipo de investimento é desenhado para o estrangeiro que busca ganhos com aplicações no Brasil ? mas na prática se tornou uma opção para o brasileiro enviar dinheiro ao exterior sem declarar ao governo. Depois, a estimativa de lucro dos papéis nacionais, com a taxa de juros da economia nas alturas, continua sendo atraente. Quem aceita o risco do título internacional brasileiro tem uma estimativa de rendimento de até 12% ao ano, enquanto um seguro papel americano, por exemplo, oferece em torno de 1% no mesmo período.

Na comparação com a indústria de fundos nacionais, o off shore largou bem este mês, acumulando ganhos médios de 6,85% até o dia 18 de junho. Deixou para trás as ações que perderam 2,88% e a renda fixa que ainda amarga prejuízo de 0,45%, no mesmo período. O bom desempenho, porém, não pode ser confundido com segurança no investimento. ?Fugir aleatoriamente para um off shore nem sempre ameniza as chances de perder dinheiro com a instabilidade da economia ?, diz Paulo da Veiga Monteiro, diretor da Mercatto Gestão de Recursos.

É fundamental pesquisar bem as opções do mercado. Mas decifrar as carteiras do off shore não é nada fácil. Os principais administradores tratam o assunto com sigilo absoluto. O Bank of America, o Pactual e o Banco Inter American Express, por exemplo, se recusam a divulgar informações. Os analistas alegam que é um investimento que exige discrição porque o dinheiro circula sem ser declarado para o governo. Então, você precisará investigar a carteira diretamente com cada administrador ou pedir ajuda a uma empresa de consultoria financeira. Depois de encerrar a difícil missão de abrir a caixa preta dessas aplicações, o investidor precisa ainda se certificar dos prazos de resgate. ?Apenas alguns fundos têm agilidade para trocar uma moeda por outra rapidamente e reduzir os riscos conforme as diretrizes do mercado?, explica Monteiro.

Diante das ponderações, ficou claro que não basta ter uma aplicação atrelada a alguma moeda estrangeira para colocar o dinheiro a salvo das atuais incertezas da economia brasileira. Às vezes, a estratégia chega a ser contraditória. Eis um exemplo: os fundos de investimento no exterior (Fiex) tiveram um aumento surpreendente de R$ 3,2 milhões nas últimas duas semanas, segundo o site financeiro Fortuna. O período coincide com o auge das perdas nos fundos de renda fixa, que podem ser consideradas a sua versão nacional. ?O risco do Fiex é similar ao de uma aplicação DI?, afirma Luiz Eduardo Pinho, gestor da Sul América Investimento. Ambos dependem da capacidade do governo honrar com os compromissos financeiros. Conforme a legislação, este tipo de fundo aloca 80% da carteira em papéis da dívida pública externa, como os do tipo C-Bond.

A diferença é que os fundos Fiex também estão sujeitos a variações do câmbio, já que o dinheiro aplicado no Brasil é convertido em dólar ou outra moeda estrangeira para a compra de títulos brasileiros no exterior. ?Só que os dois ativos oscilam inversamente. Quando os papéis brasileiros estão valorizados, o câmbio cai e vice-versa?, explica Marcello Paixão, diretor de investimento da Max Blue. Assim, o investidor consegue diversificar o risco. Neste momento, a favor dos Fiex está a possibilidade de valorização dos títulos brasileiros no longo prazo. O C Bonds, por exemplo, que estavam cotados a 83% do seu valor há um mês, despencaram para 65%. A diferença, segundo Pino Marco Di Segni, assessor de investimento da Hedging Griffo, pode representar bons lucros, caso ocorra uma valorização no futuro. O investidor, no entanto, não pode considerar essa estratégia como um escudo protetor do seu dinheiro. A boa performance da aplicação no exterior, por meio do Fiex ou da maioria dos off shores, dependerá da calmaria do risco Brasil.