Os bancos sempre foram conhecidos por pensar em primeiro lugar nos lucros e em segundo e em terceiro lugar também nos lucros. Uma das cinco maiores instituições financeiras privadas do País quer mudar essa fama. O Real, que pertence ao holandês ABN-Amro, resolveu colocar o meio ambiente, os direitos sociais e o respeito às minorias no topo de sua lista de prioridades. E promete que não vai ficar só nas palavras de ordem dos militantes verdes. A partir de agora, toda empresa que pedir um empréstimo será submetida a uma análise ambiental e social. Se a companhia não respeitar princípios mínimos pode até ficar sem crédito. ?Não queremos vincular nosso nome a empresas com imagem ruim?, diz José Luiz Majolo, diretor-executivo do banco. ?Em casos limites, podemos até perder o cliente.?

A nova política começou a ser colocada em prática em julho, embora ainda em fase de testes. Desde então, toda vez que um empresário entra numa agência para pedir empréstimo recebe um questionário. ?A empresa respeita a legislação que proíbe o trabalho antes dos 16 anos??, pergunta o texto. ?A empresa tem um plano para reciclar o seu lixo??, continua o documento. O questionário, com onze perguntas, verifica se a empresa controla poluentes, economiza água, se recebeu multa de órgãos ambientais e como trata seus empregados. Com base nas respostas e checagens em órgãos de fiscalização e Organizações Não-Governamentais (ONGs), o Real decide o crédito.

De início, são descartadas empresas que utilizem o trabalho infantil, atividades que incentivem a prostituição, madeireiras sem certificação ambiental e empresas de fabricação de amianto (porque faz mal à saúde dos trabalhadores). Outro grupo merece atenção especial, embora não haja restrição de crédito. São 14 setores onde ocorrem mais problemas e que incluem desde mineração e construção civil a indústrias químicas. Também estão incluídas companhias de bebidas, tabaco e armas ? nesses casos, a maior preocupação é com as campanhas publicitárias para os jovens.

 

 

Se a avaliação da empresa for negativa, o Real não pretende, num primeiro momento, cortar o crédito. Mas fará sugestões de mudanças. ?Não somos polícia ecológica?, diz a diretora-executiva Maria Luiza de Oliveira Pinto. ?O que mais importa são os sinais de empenho para resolver os problemas.? A avaliação ambiental e social será incluída no rating da empresa ? a nota de risco que define a taxa de juros a ser cobrada pelo banco. Em casos extremos, em que não houver sinais de mudança, podem ocorrer cortes. Desde julho, o banco dispensou cinco empresas, sendo duas madeireiras, duas empresas de amianto e uma de carvão, considerados casos perdidos.

O Real está disposto a perder dinheiro para proteger a natureza? Segundo os diretores do banco, não será necessário. Empresas que desrespeitam direitos e o meio ambiente não são confiáveis, podem receber multas e ser rejeitadas pelos consumidores, diz Majolo. Por isso, emprestar para elas também seria arriscado. ?A primeira condição para ganhar crédito é caráter?, continua o diretor. Esse é o mesmo argumento usado pelo ambientalista Mario Monzoni, da organização Amigos da Terra, contratado para treinar 1.500 gerentes do Real. ?Há uma crescente pressão dos consumidores e isso influi nos resultados e na imagem do banco?, diz Monzoni.

A iniciativa do Real faz parte de uma tendência internacional. Nos EUA, as leis estão restringindo cada vez mais a vida das empresas. Na Europa, o movimento parte de companhias interessadas em cativar a clientela. O próprio ABN tem projetos ambientais na Holanda, mas nada tão ousado quanto o programa brasileiro. Aqui, o banco tem outras iniciativas com apelo social, como treinamento profissional para deficientes físicos e a oferta de crédito em favelas. Para o professor de marketing da FGV-Eaesp, Marcos Cobra, a explicação para essas iniciativas é uma mudança no comportamento dos consumidores. ?Ser politicamente correto está virando um bom negócio?, diz ele.