Quase um ano e meio depois do leilão do Banespa, os executivos do Santander finalmente receberam o banco do tamanho que encomendaram. Os espanhóis acabam de reconquistar o que perderam dias depois da privatização. Com a recente inauguração de uma agência em frente ao Fórum João Mendes, no centro de São Paulo, o Santander concluiu a substituição de 180 postos de atendimento que tinha dentro dos prédios do Poder Judiciário e foi obrigado a fechar por ordem da própria Justiça, logo após o leilão. Na época, o Banespa também perdeu o direito a administrar R$ 2 bilhões em depósitos feitos em juízo e que foram transferidos para o rival, Nossa Caixa, Nosso Banco. ?Substituímos esse dinheiro por R$ 2 bilhões em depósitos de novos clientes. Demos um ponto final nesse capítulo da nossa história e agora vamos pensar no futuro?, diz Pedro Coutinho, vice-presidente da rede de agências do Banespa.

No início da história a que Coutinho se refere o desfecho não era tão claro. Mal o Santander havia entregue um cheque de R$ 7 bilhões pelo Banespa, a Justiça determinou a transferência dos depósitos judiciais e a retirada dos postos de atendimento dos Fóruns. Já seria um golpe duro por si só. Mas os concorrentes perceberam que o banco teria um período atribulado pela frente ? com embates com funcionários e renegociações com os clientes ? e avançaram sobre seu mercado. Bancos públicos adotaram o discurso em defesa dos bens do Estado como arma de marketing. Lançaram promoções para atrair servidores e órgãos públicos que formavam a clientela mais tradicional do Banespa. Procuraram prefeitos do interior com o argumento que não era mais preciso deixar a conta no Banespa, que passou a ser um banco de controle privado e estrangeiro.

?Era natural que todo o mundo partisse para cima de nós num momento de transição?, diz Coutinho. Na época, o clima de irritação foi bem maior, mas o Santander decidiu não brigar. Preferiu não questionar a decisão judicial e preparou um plano de reação. O banco criou uma diretoria para o setor público. Foram reformados ou abertos 200 pontos de atendimento. O Banespa abriu postos bancários até em Batalhões da Polícia Militar e construiu uma agência ao lado de cada fórum de
onde havia sido obrigado a sair. Em todas as agências, foram trocados os equipamentos de informática.

Pelas contas do Banespa, o saldo da disputa foi positivo. Apesar de ter perdido 14 prefeituras para os rivais, o banco ganhou outras 60 e chegou a 214 contas municipais. Na época da privatização, o banco tinha três milhões de clientes. Hoje, são 3,4 milhões. Os novos clientes trouxeram dinheiro suficiente para repor os R$ 2 bilhões de depósitos judiciais. ?Recuperamos o que havíamos perdido e ainda crescemos?, diz Coutinho.

A Nossa Caixa, por sua vez, não conseguiu ficar com todo o mercado que esperava ganhar do Banespa, mas não saiu perdendo. Oficialmente, o banco não se manifesta sobre a disputa. Mas sabe-se que a Nossa Caixa continua recebendo os bilionários depósitos judiciais conquistados na época da privatização. Um executivo do banco diz que a linha de crédito especial aberta para servidores públicos logo depois do leilão do Banespa rendeu bons negócios. ?Fizemos empréstimos de mais de R$ 500 milhões?, diz ele. Até hoje, a Nossa Caixa dedica especial atenção à concorrência com o Banespa. Sempre que o rival abre uma nova agência, a Nossa Caixa envia um funcionário ?espião? para dar uma olhada. O banco contratou mais funcionários e reformou seus próprios postos de atendimento para enfrentar o rival. ?Estamos atentos aos movimentos deles?, diz o executivo.

A atenção agora será voltada para a nova estratégia do Banespa. Encerrado o período de transição depois do leilão, a prioridade é aumentar a participação, na carteira de clientes, da freguesia que não pertence ao serviço público. Para isso, o Banespa vai investir num tratamento especializado. Na agência central, em São Paulo, foi criada uma ala para a colônia japonesa. Ali, os funcionários são descendentes de japoneses e a decoração segue o estilo oriental. A nova agência ao lado do Fórum João Mendes tem uma sala para o encontro de advogados e juízes. Em cidades do interior, foram reformadas agências, com espaço para fazendeiros se reunirem, tomarem café e jogarem conversa fora. ?Vamos dar um novo passo na história do banco?, diz Coutinho.