O banqueiro Gastão Eduardo de Bueno Vidigal morreu na semana passada, aos 82 anos, sem ter cedido à idéia que mais abominava nos últimos anos ? a de vender o seu banco, o Mercantil de São Paulo. Último representante de uma geração de banqueiros à moda antiga, de personalidade forte e mão-de-ferro sobre a administração dos comandados, ele fez do Mercantil a principal motivação de sua vida por 62 anos. Apegado à instituição e ao controle absoluto de seus passos, o patriarca se viu em um dilema desde o fim do ano passado, quando foi avisado pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, de que deveria injetar logo mais capital no banco ou encontrar alguém que o fizesse. Retomou então uma antiga negociação com o Citibank, que tinha interesse na aquisição sobretudo da Finasa, a financeira do Mercantil, mas continuou impondo obstáculos que fizeram as negociações se arrastarem sem conclusão até seus últimos dias de vida. Em meados de julho, debilitado, abandonou as conversas. Morreu de uma parada cardíaca no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Junto com o banqueiro desaparecem os maiores obstáculos à venda do Mercantil a um grupo de maior porte. Seu único filho homem e sucessor imediato mais provável, Gastão Augusto, vice-presidente do conselho, é favorável à venda e tem se mostrado mais ágil e bem menos inflexível. Nos últimos meses, mais de uma vez chegou a fechar acordo sobre pontos específicos da negociação, tanto com o Citi como com o BBVA, também candidato à compra, mas acabou desautorizado pelo pai na presença dos representantes das instituições estrangeiras. Dizia ao pai que a demora na venda fazia o banco perder valor. Sua subida à presidência, porém, só se tornará fato se confirmada após a abertura do testamento do pai, prevista para ocorrer neste dia 14, um dia depois da missa de sétimo dia. Amigos da família e candidatos à compra temem que Vidigal possa ter deixado alguma surpresa em seu testamento que torne as negociações mais difíceis.

Se não houver sustos, porém, as chances de um desenlace mais rápido aumentam muito. O Citibank começou a fazer uma verificação nas contas (due diligence) do Mercantil uma semana antes da morte do presidente, e não interrompeu os trabalhos na semana passada. Está tão perto de um acordo quanto jamais esteve. O BBVA, que chegou a ser rechaçado pelo banqueiro por ter cancelado uma reunião na última hora, vai voltar a carga, embora sua tentativa de negociação tenha parado em um estágio muito inicial. Há ainda a possibilidade de que outros interessados, que não tinham espaço devido a idiossincrasias do veterano financista, possam tentar agora uma aproximação. Um exemplo é o Bradesco, que chegou a tentar um contato intermediado por uma instituição amiga de ambos, o BBA Creditanstalt, de Fernão Bracher e Antônio Beltran Martinez. O fundador do Finasa alimentava uma aversão tão grande ao maior banco privado brasileiro que interrompeu abruptamente as conversas tão logo soube que o Bradesco estava por trás da sondagem.

Vidigal deixou sua marca também na vida política. Foi secretário da Fazenda no Estado de São Paulo, em 1961, no governo Carvalho Pinto, e teve assento no Conselho Monetário Nacional nos dois primeiros governos do regime militar, de Castello Branco e Costa e Silva. Nesse período, ajudou a financiar a Oban, grupo paramilitar de repressão a ativistas de esquerda. Há apenas três anos, em entrevista, chegou a dizer que, se fosse presidente, fecharia o Congresso para baixar as reformas fiscal, política e tributária. Era radicalmente conservador e esteve sempre ligado a grupos de extrema direita. Era ligado também à TFP (Tradição, Família e Propriedade), que defende as tradições da religião católica anteriores ao Concílio Vaticano II, realizado no início dos anos 60.