08/03/2026 - 19:50
O barril do petróleo WTI superou neste domingo, 8, os US$ 100, o que não acontecia desde julho de 2022, impulsionado pela guerra no Oriente Médio, com a guerra no Irã impedindo a produção e o transportena região.
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O preço do barril de petróleo Brent, o padrão internacional, estava em US$ 101,19 logo após a retomada das negociações na Bolsa Mercantil de Chicago, um aumento de 9,2% em relação ao preço de fechamento de US$ 92,69 na sexta-feira.
O West Texas Intermediate (WTI), petróleo bruto leve e doce produzido nos Estados Unidos, estava sendo vendido por volta das 20h por cerca de US$ 107,2 o barril. Isso representa um aumento de mais de 16,2% em relação ao preço de fechamento de sexta-feira, de US$ 90,90.
Pesa também sobre essa cotação o anúncio feito neste domingo que o Irã escolheu o aiatolá Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, morto em um ataque na primeira semana do conflito, como seu novo líder supremo.
Neste domingo, um cenário quase apocalíptico tomou conta de Teerã. Moradores da capital iraniana acordaram com a impressão de ainda estar no meio da noite, quando uma espessa fumaça preta procedente de depósitos de combustível atacados mergulhou a cidade na escuridão.
“Quando acordei, pensei que havia algum problema”, disse à AFP um motorista de cerca de 50 anos. Muitos habitantes relataram a mesma sensação diante do céu escurecido, que obrigou moradores a acender as luzes em plena manhã.
O clima chuvoso e as nuvens densas aumentaram ainda mais a sensação de confusão. Elas se misturavam com grandes colunas de fumaça preta provenientes dos locais de armazenamento incendiados.
A fumaça se espalhou por grande parte da cidade, uma metrópole que se estende por dezenas de quilômetros. O cenário deu à capital um aspecto apocalíptico, com forte cheiro de queimado em alguns bairros, no nono dia da guerra desencadeada por ataques de Israel e Estados Unidos.
Esta foi a primeira vez desde o início do conflito que a infraestrutura petrolífera do Irã foi atacada. Quatro depósitos e um centro logístico de produtos petrolíferos em Teerã e arredores foram atingidos por bombardeios. Em um dos depósitos de combustível atingidos na capital, o petróleo continuava queimando. A AFP viu chamas ainda se intensificando mais de 12 horas após os bombardeios israelenses.
Racionamento de gasolina
Nos arredores do depósito, forças de segurança que usavam máscaras e capas impermeáveis para se proteger das emissões tóxicas controlavam a circulação.
Autoridades advertiram que os gases liberados podem “provocar irritação nas vias respiratórias e nos olhos”, e pediram aos moradores que permaneçam em casa.
Segundo o Crescente Vermelho iraniano, “grandes quantidades de hidrocarbonetos tóxicos, enxofre e óxidos de nitrogênio” foram liberadas na atmosfera. Vidros de edifícios residenciais próximos estilhaçaram com as explosões.
O governador da província de Teerã, Mohammad Sadegh Motamedian, informou pela manhã que a distribuição de gasolina havia sido “temporariamente interrompida”, mas pediu à população que não se preocupasse.
O abastecimento foi limitado a 20 litros por veículo. Longas filas se formaram hoje nos postos de gasolina da capital.
Impactos na economia
O conflito no Oriente Médio entre Irã, Estados Unidos e Israel tem mexido com os preços do petróleo no mercado internacional.
Na última semana, os ataques das forças de Israel e dos Estados Unidos ao Irã funcionaram como um despejo de gasolina de alta octanagem a um braseiro gigante – e as chamas ainda ardem e têm proporções desconhecidas.
O efeito imediato, com o estrangulamento do estratégico Estreito de Ormuz, onde passa 25% do petróleo e gás do mundo, é o custo energético global. Ao longo da semana, economistas e especialistas setoriais consultados pela IstoÉ Dinheiro buscaram organizar os fatos para mensurar as consequências do conflito aos preços do petróleo (base energética das economias).
Entram na lista seguro e frete de navios, inflação e juros, cotação do dólar, o efeito em bolsas de valores, exportações e importações e, por fim, o momento em que isso tudo poderá esbarrar na ponta das cadeias, para o consumidor final. O Brasil é resiliente hoje, mas tudo dependerá do tempo de duração do conflito. Há quem diga que um mês é suficiente para comprometer bastante o cenário logístico.
Um ponto central, em princípio, está no bloqueio do Estreito de Ormuz, o trecho de mar com pouco menos de 50 quilômetros de largura que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Fechado oficialmente ou não, o ponto é que os navios não arriscam passar, o que afeta as cotações da commodity, de seguros marítimos e inviabiliza operações de comércio internacional.
Caso a guerra chegue a um mês o cenário ficará “bem mais complicado”, avalia o ex-Secretário de Comércio brasileiro, já que não só afetará a disponibilidade e preços de petróleo e seguros de navios e cargas de modo geral, como impactará a logística do comércio (importações e exportações) também para as companhias brasileiras que têm clientes na região. Os preços vão subir se houver danos à infraestrutura de produção e transporte de petróleo, algo que pode ser agravado caso os países produtores da região declarem guerra ao Irã, comenta Walter de Vitto, economista da consultoria Tendências.
A preocupação do mercado é o petróleo porque alterações bruscas de preços na commodity gera reflexos sobre a inflação – e, consequentemente, sobre o futuro da taxa de juros.
Efeito ambíguo
Para a economia brasileira, a guerra tem um efeito ambíguo. Se por um lado o petróleo é um item importante da atividade econômica, incluindo exportações (o que somado às reservas cambiais torna o país resiliente a choques externos nesse campo), por outro há risco para a inflação e controle de juros. Afora o preço do petróleo e as expectativas no universo macroeconômico, a guerra chacoalha os mercados financeiros.
Defagem entre preços segue no Brasil, mas combustível pode subir em breve
Com a disparada do petróleo, a defasagem entre os preços internacionais e os valores praticados pela Petrobras para o mercado doméstico está cada vez maior. Um relatório do Goldman Sachs mostra que a estatal brasileira está vendendo seu diesel a distribuidoras com preços cerca de 30% abaixo da referência internacional. Essa é a maior diferença já registrada desde 2022.
De acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) , para se equiparar aos preços internacionais do petróleo a Petrobras deveria elevar o diesel em R$ 1,51 o litro e a gasolina e R$ 0,47 o litro. A defasagem do preço da gasolina também vem aumentando, segundo a Abicom.
A Petrobras historicamente evita repassar imediatamente a volatilidade global aos preços locais, segundo reiterou a presidente da petroleira, no início da semana. Na ocasião, outras fontes da companhia também disseram que a Petrobras monitorava de perto os desdobramentos do conflito e previa uma semana de observação no mercado de petróleo antes de uma eventual decisão sobre reajuste.
O diesel importado responde por cerca de 25% da oferta do combustível no Brasil, com a parcela restante sendo produzida por refinarias locais, principalmente a Petrobras, lembrou o Goldman. Um cenário sem reajuste, acrescentou o banco, poderia desincentivar distribuidores e importadores independentes a importar o combustível, reduzindo a disponibilidade do produto no país.
Segundo fontes consultadas pela Reuters, é preciso ficar atento também ao comportamento do câmbio, que faz parte da equação de preços de combustíveis da Petrobras. Um prolongamento da guerra poderia, segundo uma das fontes, gerar uma fuga de investidores dos EUA, e o Brasil poderia ser um dos destinos desses recursos.
“Se o povo americano não aprovar, houver preocupação com os gastos com a guerra, esse dólar pode baixar aqui e o câmbio compensar a alta do Brent”, afirmou uma das fontes.
*Com informações de AFP, AP e Reuters
