O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu pela manutenção da taxa de juros, que fica em 15% ao ano, o maior patamar em quase uma década.

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A Selic esteve em 14,25% pela última vez em 2016, quando permaneceu nesse patamar até outubro daquele ano, em meio a uma crise econômica e ao processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

A decisão, que foi unânime entre os membros do Comitê, está em linha com o esperado pelo mercado, que projeta corte nos juros para 2026. O comunicado divulgado pelo Copom reforça a expectativa do mercado, pois afirma que seguirá avaliando a manutenção desse patamar da taxa de juros “por período bastante prolongado”, até que seja suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta.

A taxa de juros é um instrumento da política monetária para tentar controlar a inflação, hoje em 5,13% em doze meses. A meta é de 3% ao ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

No documento, o Comitê aponta que, no cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica segue apresentando certa moderação no crescimento, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo. O colegiado destaca ainda que, “nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação”.

Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, aponta que tanto a decisão como o comunicado não trouxeram “grandes novidades”, mas destaca que o comitê “reconhece alguma desaceleração na economia”, e ainda vê um mercado de trabalho bastante resiliente, além de expectativas inflacionárias desancoradas. “Adicionalmente, há fatores que adicionam volatilidade ao ambiente, como conflitos geopolíticos e tarifas, especialmente as aplicadas sobre o Brasil”.

Já Gabriel Lago, planejador financeiro e sócio da The Hill Capital, avalia que o tom do comunicado veio “mais hawkish, até um pouco mais do que veio em julho”, justamente por conta da indicação de “patamar mais contracionista por um tempo prolongado”.

“O Copom, desta vez, fez questão de falar que vai retomar o ciclo de alta se julgar necessário. Isso de fato me chamou a atenção. Isso não tinha sido feito no último comunicado. Na minha visão, o comunicado vem com uma postura bem mais firme contra a inflação e reforça que não há espaço para cortes”.

Sobre a repercussão nos mercados, Lago prevê um reflexo “imediato” da decisão nesta quinta-feira, com os juros subindo. “Juros futuros em alta, então refletindo aí o tom mais duro que teve nesse comunicado. O dólar pode ganhar um pouco de força com essa percepção de risco externo e geopolítico”.

Superquarta

Nos Estados Unidos também teve decisão sobre juros, por isso o dia é chamado de Superquarta, quando o banco central do Brasil e dos EUA (Federal Reserve-Fed) fazem suas decisões sobre o juro básico da economia,

O Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, decidiu pelo corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros do país, que fica agora no intervalo de 4% a 4,25%. Este é o primeiro corte nos juros em nove meses.

Confira o comunicado do Copom na íntegra

O ambiente externo se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos. Consequentemente, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos têm sido afetados, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige particular cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica.

Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica segue apresentando, conforme esperado, certa moderação no crescimento, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação.

As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,8% e 4,3%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o primeiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,4% no cenário de referência (Tabela 1).

Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, seguem mais elevados do que o usual. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

O Comitê segue acompanhando os anúncios referentes à imposição de tarifas comerciais pelos EUA ao Brasil, e como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho. Para assegurar a convergência da inflação à meta em ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado.

O Copom decidiu manter a taxa básica de juros em 15,00% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. O Comitê seguirá vigilante, avaliando se a manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta. O Comitê enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Diogo Abry Guillen, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, Renato Dias de Brito Gomes e Rodrigo Alves Teixeira.”